Além de uma mochila nas costas

Flávia Simão

Uma maneira muito válida de conhecer novas culturas, histórias e povos é viajar

Mochilão, para muitas pessoas, é sinônimo de mochila nas costas e gastar pouco. É feito geralmente por jovens que estão dispostos a conhecer novas culturas, histórias e muita gente diferente de todo o mundo. E muitas vezes, é isso mesmo que acontece.

Francisco Carvalho, ex-estudante de Filosofia, realizou seu sonho de fazer um mochilão. Largou a Universidade e a casa e foi viajar. Apenas com um destino final, partiu rumo ao Uruguai, sem saber pelo que poderia passar. Francisco afirma, “Decidi realizar um mochilão para ampliar meus conhecimentos culturais, sociais e pessoais; Livrar-me das obrigações pretendidas pela “sociedade” e me conectar diretamente com a natureza e a vida em sua camada mais pura. A escolha para o Uruguai foi simbólica, mas desde criança sonhei visitar o Monumento al Ahogado, em uma das praias de Punta Del Este.”

"Decidi realizar um mochilão para ampliar meus conhecimentos culturais, sociais e pessoas" (Foto: Francisco Carvalho)

“Decidi realizar um mochilão para ampliar meus conhecimentos culturais, sociais e pessoas” (Foto: Francisco Carvalho)

Para o mochileiro, o pior dia da viagem foi o primeiro. Era preciso dar os retoques finais à mochila, colocar todo o peso nas costas e ir. Não só o peso físico, mas o psicológico também. “Assistir ao ceticismo de quem fica, duvidando se é possível um dia eu voltar vivo, olhar nos olhos cheios de lágrimas de quem eu amo me dando adeus, encarar enfim, o desconhecido. O primeiro dia não é mágico como parece, é doloroso.”

Francisco partiu de Santa Catarina rumo ao Uruguai. Ao longo do caminho encontrou vários admiradores do seu sonho. Pessoas que lhe deram comida, carona ou até mesmo algum dinheiro, pois ele partiu de casa com apenas 32 reais no bolso. “Eu doei tudo antes de viajar. É um princípio baseado em algumas experiências, ajudei uma instituição de crianças com câncer. A viagem não seria 1/3 do que foi se eu não tivesse feito isso.”

"Livrar-me das obrigações pretendidas pela "sociedade" e me conectar diretamente com a natureza" (Foto: Francisco Carvalho)

“Livrar-me das obrigações pretendidas pela “sociedade” e me conectar diretamente com a natureza” (Foto: Francisco Carvalho)

Percorrendo a BR 101, as bolachas que havia comprado em sua cidade eram de emergência para o viajante. As refeições eram provenientes da bondade das outras pessoas, as quais lhe davam pratos de comida e, muitas vezes, ofereciam banho. Francisco apelidou essas pessoas de “anjos da viagem” e isso provava o intuito principal da sua aventura: a boa vontade do ser humano. “Aprendi que escondido atrás da máscara involuntária do trabalho cansativo, das obrigações diárias e de todo o dinheiro, existe a boa alma dos seres humanos… E isso é lindo de se perceber”.

Praticamente todo o percurso foi feito pela BR 101, passando pelo litoral. As praias, que davam a estética perfeita para a viagem, escondiam-se atrás de enormes dunas, protegendo a beleza natural de seus mares e estavam quase desertas pelo fato de ser inverno.

Quase sempre as noites se iam em postos de gasolina. Dormindo debaixo de caminhões, era assim que Francisco conseguia caronas no dia seguinte, “com caminhoneiros drogados, seja de cocaína ou rebite”. No entanto, os postos existem até um certo ponto do Rio Grande do Sul, depois, tudo se torna vazio, com apenas alguns vilarejos que se distanciam uns 100km uns dos outros. Sem contar no vento Sul, que foi um dos piores inimigos para o mochileiro: “Passei muita fome e frio, dormi embaixo de tempestade, entre pinheiros, lendo livros enquanto o medo pegava no sono. Acordava sempre cedo para aproveitar o dia e caminhava em torno de 30km para encontrar comida.”

"Os problemas desapareceram. Fui contaminado com uma satisfação sem igual!" (Foto: Francisco Carvalho)

“Os problemas desapareceram. Fui contaminado com uma satisfação sem igual!” (Foto: Francisco Carvalho)

Quanto mais perto do Uruguai, mais a paisagem se assemelhava com o interior. “Só existem fazendas e é difícil conversar, a mistura do sotaque gaúcho com espanhol é fora de sério.” Na fronteira de Chuy tudo mudou. Parecia a 25 de março, mas ainda com caráter interiorano e para o mochileiro, foi fácil acostumar-se a falar espanhol enrolado e a comer pratos típicos, como Chivitos e Panchos.

A entrada no Uruguai foi fácil. Apresentando o passaporte ou mostrando o RG, qualquer brasileiro consegue visitar. “Um dos países mais seguros do mundo. Já me deram batida policial nas primeiras horas de visita. Várias viaturas na rodovia, mesmo sendo calmas e bem conservadas.”

O clima do lugar era muito bom, nunca com a sensação de calor extremo. A paisagem era sempre rural e não havia pedágios. Para Francisco, pegar carona era muito fácil: “a população está mais habituada, pois recebem vários mochileiros. Param tranquilos, com um papo legal e explicando o caminho. Parece um tour”. As cidades eram simples, arquitetadas aos moldes europeus e de belas paisagens. “Lá vi o melhor pôr-do-Sol da minha vida. Seria algo equivalente ao horário de verão aqui no Brasil, porém todo o céu adquiriu tons de rosa indescritíveis.”

"Entardecer, sumir ao horizonte para jamais se perder em uma vida monótona" (Foto: Francisco Carvalho)

“Entardecer, sumir ao horizonte para jamais se perder em uma vida monótona” (Foto: Francisco Carvalho)

Francisco viveu seu sonho em sua forma mais genuína. Conheceu culturas e pessoas que o fizeram acreditar no bem que existe na humanidade, mas encontra-se esquecido. “Se estou satisfeito? Sim, faria de novo, porém não tão jogado ao vento. Eu vivi a liberdade? Me privei de comer, do conforto e do carinho de quem me ama. O conceito de liberdade reverteu-se: a questão não é ser desprendido dos males que você acarreta ao longo da vida, mas sim de como lida com eles.”

Sentir o vento levar um sonho, não com o tempo, mas sim com uma memória, é realmente gratificante" (Foto: Francisco Carvalho)

Sentir o vento levar um sonho, não com o tempo, mas sim com uma memória, é realmente gratificante” (Foto: Francisco Carvalho)

O aventureiro também deu dicas para os futuros mochileiros: mochila impermeável é essencial, levar um cartão de crédito/débito para imprevistos escondido em algum lugar também. Tudo o que for peso extra atrapalha e cansa demais. Levar uma proteção pessoal, como a faca, por exemplo, protetor solar e muitos cantis de água. Adaptador de tomada, pregos e linhas são úteis. Jaqueta impermeável, bota impermeável e laceada, isolante térmico, saco de dormir, lanternas, barraca e lonas. Durma cedo e acorde cedo! Não deixe para armar acampamento no final do dia, nutra-se bem. Conheça o clima da região, ande apenas o seu limite, carregue um mapa, de preferência, das rodovias e aprenda a pedir. Tenha um kit de primeiros socorros e improvise travesseiros. Ter fotos das pessoas que gosta é bacana! Anote tudo sobre a viagem, tire fotos, “é uma ótima recordação e experiência para o futuro.”

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