Nossas tão capengas democracias

Michael Barbosa

Marcada por uma história de golpes, Honduras vai às urnas e sai sem a certeza da legalidade

A história começa em 2009. O então presidente hondurenho Manuel Zelaya é deposto do poder após o judiciário do país emitir um mandato de prisão contra ele. O motivo seria uma consulta popular encomedada pelo presidente a respeito da possível realização de uma assembleia constituinte. A realização duma consulta desse tipo sem aprovação do parlamento constituiria, entre outros, crime de “Traição à Pátria”. Em 28 de junho – no dia que seria realizada a tal consulta – a residência presidencial é cercada por militares. Zelaya foge para a Costa Rica e depois se abriga no Brasil, antes de ser anistiado e poder voltar ao seu país.

A reação internacional de inconformidade num primeiro momento se dissipa rapidamente. Zelaya estava cada vez mais próximo dessa nova esquerda latino-americana de Chavez, Lula e companhia. EUA, ONU e a comunidade internacional no geral acabaram por recuar e deixar passar – o que é mais um golpe na América de tantos outros?

Bandeira de Honduras

Honduras

O povo hondurenho voltou às urnas no último domingo. Juan Orlando Hernández, candidato  do governista Partido Nacional, teve como principal adversária Xiomara Castro, mulher de Zalaya e representante do Libre, partido da oposição à esquerda.

O desenrolar do domingo de votos é pouco surpreendente. O TSE (Tribunal Supremo Eleitoral) de Honduras já reconhecia a vitória de Hernández com dois terços dos votos apurados, mesmo com uma diferença alcançável de Xiomara para ele. O candidato a vice na chapa de Xiomara foi ainda mais longe, afirmou em anúncio que mais de 400 mil votos não teriam sido sequer contabilizadas e que o Partido Nacional teria sumido com outras tantas atas da eleição. A oposição, derrotada, não reconheceu a vitória de Hernández; os EUA, aliviados, não titubearam, e logo disseram amém aos governistas.

Países como Honduras e seus vizinhos Guatemala e Nicarágua traçaram uma história pós independência enraizada na cultura do golpe, do intervencionismo estadunidense, do mandato interrompido, da política feita à margem do povo e nos arredores das forças armadas e dos escritórios do empresariado.

O tempo legitima o estabelecimento da ordem democrática. A democracia que ainda não é a regra, mas a exceção, está incompleta. E é assim que jogo segue por boa parte da América Latina, aos trancos, capengando.

Desde a independência em 1821, Honduras passou por mais de cem golpes de estado. No lema nacional hondurenho lê-se: “Libre, Soberana e Independiente”.

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