Panorama

Adriana Kimura

Uma crônica de boteco

Boteco

Estava inteiro como me vem o típico do papel. De uma espécie de robusteza que obviamente o tornou monumento onde sempre estava e a fazer o de costume. Pede uma, duas, três. Mas sou eu que reparo. Não é atitude premente, por embriaguez ou por desfrute – e este seria algum tipo de êxtase perdida no tempo, algo que a rotina furta da epifania. Acontece que isso tudo lhe compete. É o banco do balcão. Primeiro que chega e vai último. Olha com toda a verdade na cara de quem entra e alcançou a façanha de pertencer ao cenário.

São oito, nove da tarde. Os garotos aos 20 anos, pelo futebol. As moças em todas as idades acendem e chupam os cigarros cavando bem as maçãs do rosto. São lindas fazendo qualquer coisa. O banco do balcão pede mais uma. Nós somos os pais na porta da escola, as vizinhas de janela, os donos dos carros que se perseguem no trânsito compartilhando horários. Estamos pela cerveja, praxe. Mas, também há que se envolver uma aura. Um efeito de tudo que fazemos de muito íntimo, complacente e costumeiro nas presenças das mesmas pessoas. Caso não nos tenhamos falado até hoje, tenho-lhes muito bem, com nomes, rostos e histórias. A gente se bota comovido sempre, com ou sem conhaque. Como o diabo. Só não nos pode fazer sentido a qualidade do alheio.

Entra a moça com violão, o balcão encara e torna a olhar outras vezes como a frisar a importância da caricaturização intocada – os boêmios e as musas diretamente dos sambas de Vinícius, via de regra, são disso. Mas da época de concepção, antes do apreço das senhoras, o poetinha no balcão, também gordo e embriagado. Aqui não saem aqueles copos tropicais, com sementes e destilados. A moça vai de cevada, cantar lá fora – a voz que nasce no peito e vaza pela garganta. Ela mais falta do que vai.

Falta pouco pro jogo. A ressaca é a mesma do mar, para fazer jus a essa figura de clichê com motivo de ser. Pelo meio da noite, o mar de gente é maré pro outro lado da rua. Estão todos enlouquecidos, algo não vai bem pra um camisa qualquer coisa. Vai bem pro Valdir. Hoje fecha mais tarde, com aval. As moças não perdem a voz afinada na verbalização. Ah! Quê isso!? Justamente: que isso, gente? Engraçado é dizerem que o carinha lá estava MUITO impedido. Acho apropriado que estivesse mesmo. Muito. Se é só um pouco, acho mesmo que não compensa marcar. Vai que dá tempo de chegar o miraculoso que desimpede isso aí – o dano ainda não é muito, só um pouquinho.

Então veio aquele tipo de chuva que abençoa os dias muito quentes. Não dou confiança a trovoada, mas o som de água derramando produz algum prazer específico aliado à energia elétrica que, sob recesso, nos causa a inevitável sensação de que, por ora, estamos congelados. Não precisamos muito. Está tudo escuro, o último lance do jogo se safou minutos antes do breu. Tudo desligado.

Que belezinha de boteco.

Estamos em off.

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