Uma profissão mais que especial com alunos mais que especiais

Bárbara Christan

Claudia Neves Grillo, paulistana de 44 anos, professora. A entrevistada é coordenadora de uma escola especial para autistas da cidade de Americana, no interior de São Paulo, a Tempo de Viver. Formada em Pedagogia, a profissional conta como chegou à escola e como é a experiência de trabalhar com alunos autistas.

Quando começou o interesse em trabalhar com alunos especiais? Você já visava a área do autismo?

Ao realizar meu estágio em uma escola regular numa classe de 1º ano, meu único interesse era acompanhar uma criança especial que ali estava incluída. A primeira vez que ouvi falar sobre autismo foi através de minha irmã, que trabalhava em uma locadora e me contou sobre um menino que foi até lá e jogou todos os DVD’s da prateleira no chão por não encontrá-los na mesma ordem do dia anterior. Este fato me chamou atenção e fui procurar ler um pouco sobre autismo.

Claudia Neves Grillo, nascida em São Paulo e residente na cidade de Americana (Foto: Acervo Pessoal)

Claudia Neves Grillo, nascida em São Paulo e residente na cidade de Americana (Foto: Acervo Pessoal)

Nesta mesma época – me lembro como se fosse hoje – li uma notícia no jornal da minha cidade de que estava tramitando na Câmara Municipal de Americana um projeto para criação de um centro de atendimento para crianças autistas de nosso município. Foi aí que fiquei sabendo também sobre uma Associação de Pais de Autistas de Americana, a extinta ADAPAM.

Ao ler a reportagem, disse pra mim mesma: vou trabalhar nesta escola. E foi exatamente assim que aconteceu, sonhei estar neste lugar um dia e hoje sou uma profissional realizada. Passei então a ser voluntária da ADAPAM, o que me permitiu um contato maior com as pessoas autistas e seus familiares, e fui me encontrando a cada reunião na Associação.

Como foi o processo até ser, de fato, da escola Tempo de Viver?

No dia 20 de fevereiro do ano de 2000, o Centro Municipal de Educação do Autista “Tempo de Viver” foi inaugurado, e lá estava eu, mas não ainda como funcionária. Eu continuava sonhando com minha atuação na escola e aguardando a Prefeitura me convocar, pois havia participado do concurso público para atuar como monitora educacional, o que me fazia pensar que eu seria uma ajudante de uma professora experiente na área de autismo.

No dia 20 de março de 2000, apenas 30 dias após a inauguração da escola, fui convocada pela Prefeitura. Eu me senti bem à vontade, já conhecia alguns dos alunos, mas me deparei com a seguinte notícia: não havia essa tal professora experiente. Nós mesmas seríamos as tais professoras. O concurso não era para a monitoria, e sim para lecionar.

Estou há 13 anos nesta escola, e há 11 anos na coordenação, ficando apenas dois anos na atuação em sala de aula. Foi em 2002 que a coordenadora da época iria se afastar por licença maternidade e precisava indicar alguém para substituí-la somente pelo período de sua licença, mas continuei na coordenação auxiliando-a, por indicação da Secretaria de Educação. Em 2007, com a saída da coordenadora, passei a ocupar o cargo.

O começo deve ter sido um tanto quanto novo. Como foi essa experiência? O que vocês tiveram que aprender para lidar melhor com os alunos?

Nos primeiros anos da Tempo de Viver, os professores, e tenho certeza que os alunos também, sofreram um pouco. Sabíamos pouco da síndrome e não tínhamos conhecimento das situações que desencadeavam crises comportamentais em cada um. Assim cometemos alguns erros por não conhecê-los o suficiente.

Hoje sabemos que é fundamental para o trabalho a proximidade com a família e saber do dia a dia do aluno, como os hábitos, preferências. E é o que escola procura manter: o contato diário com os familiares. Para nós, profissionais, é muito importante saber se este aluno dormiu bem, se alimentou bem, até para entendermos determinados comportamentos.

A pergunta que não quer se calar é: você é realizada com seu trabalho?

Você me pergunta se estou realizada com meu trabalho: sim, estou. Mas ainda tenho muitos sonhos, há muitas ações possíveis de se realizar em nossa escola, mas vou te revelar um sonho bem particular, essa cena já tenho elaborada em minha cabeça: daria tudo para vê-los numa praia. Queria poder ter esta experiência com cada um, poder observar a reação, perceber as sensações vivenciadas, pois são mágicas e únicas as experiências vividas com eles.

Sonho também com um espaço mais adequado, mais arborizado para atividades ao ar livre. Este sonho está bem perto de ser realizado, pois o nosso prefeito está alugando uma chácara para instalar a Tempo de Viver. Já fizemos um piquenique com os alunos neste novo espaço, e pude perceber a alegria e a serenidade em cada um. Tenho plena convicção que seremos muito felizes e lá poderemos ampliar a oferta do que hoje oferecemos aos nossos alunos.

O que se oferece hoje na escola e o que estes alunos já vivenciaram daria um lindo livro, ou melhor, um lindo filme.

O que ainda falta para aprimorar o trabalho feito na escola, em sua opinião?

Hoje sinto que falta ainda um trabalho mais sistematizado com os pais. Já demos início a grupos com essa finalidade, onde as mães se reuniam quinzenalmente para estudar algum tema de interesse, ora trocavam receitas e compartilhavam seus quitutes, ora faziam oficinas de artesanato. Mas, pela rotatividade de profissional, este grupo acabou sendo comprometido.

Sentíamos o quanto esse momento era prazeroso para as mães que participavam, pois era um dos poucos momentos da vida que se dedicavam a elas mesmas. Mas logo estaremos de volta com esse trabalho.

Posso dizer que continuo me encantando, me emocionando, me frustrando a cada dia que passa, como todo e qualquer trabalho, mas aqui com uma grande diferença, que é o privilégio de estar em contato com pessoas tão especiais que nos ensinam a cada minuto a dar valor a pequenas “grandes” coisas da vida.

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