No meio do meu olho tinha um cílio, tinha um cílio no meio do meu olho

Ingrid Woigt

Crônica

Cílios

É, no meio. Um cílio caiu no meu olho, assim, dentro dele. Achei uma audácia. Cílios caem, sim, eu sei bem disso. Os meus bastante até, acho que talvez seja por causa do curvex, do rímel, sei lá… Já pesquisei pra saber se era sintoma de alguma doença dessas que a gente só fica sabendo quando é acometido. Paranoica, como boa telespectadora de House que fui. Mas esse texto não é sobre isso.

É sobre a ousadia do cílio. Como é que uma coisa que foi projetada pra impedir que outras coisas caiam no meu olho, vai lá e cai no meu olho? Bicho traíra, o cílio. Vermelhidão e coceira, agora. Na frente do espelho, enquanto olhava o invasor que eu tinha acabado de buscar dentro de uma pálpebra irritada, tive uma epifania.

Muitas coisas são cílio na nossa vida: existem e têm certa função a desempenhar, mas acabam por darem um cavalo-de-pau e seguirem na contra-mão do caminho ao qual foram designadas. Uma bala Halls, por exemplo. Você acha que ela foi feita pra te fazer feliz, te proporcionar deleite, mas acaba cortando a sua língua. Filha duma mãe.

E um outro exemplo é o amor. O amor não era pra ser esse sentimento sublime? Que eleva o ser humano, que é lindo, uau, que nos melhora, nos arranca suspiro e sorriso, que tudo suporta e tudo crê, que nos causa frio na barriga e fogos de artifício no coração, não era pra ser, assim, mágico? Era. Mas aí, nas voltas que a vida dá, você descobre que ele também machuca. Que tava tudo bem, mas agora é só vermelhidão e coceira. Insolência, atrevimento, petulância. Como o amor ousa? É, pois é.

Mas esse é um risco que a gente corre, que a gente tem que correr. Essa coceira tava nos Termos de Uso da vida e muito pouca gente leu. Olha, o cílio me machucou, mas não é por isso que to pensando em arrancar todos eles. Cílios traem a gente, mas até hoje ninguém (no seu estado normal da consciência e sanidade) quis se livrar deles, eu acho. Pelo contrário, as pessoas cultuam os cílios. Quanto maiores, mais voluptuosos, melhor.

Eu acho que a gente tem que ser assim com os amores da gente também. Procurar maiores, mais arrebatadores, mais tiradores-de-fôlego e saber que eles podem te desapontar, sim, trazer uma irritação no olho da vida. Mas faz parte. O risco é pequeno comparado com o ganho que isso traz. Pesando as coisas na balança a gente percebe: viver sem Halls, sem cílio e sem amor é que não dá.

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