Permacultura: vida verde e sustentável

Daniela Leite

Conheça mais sobre a Permacultura, estilo de vida que beira a autossuficiência em locais e moradias integradas com as paisagens naturais

Será que é possível ao homem viver totalmente integrado ao meio ambiente, beneficiando-se de seus ciclos naturais? Existe um modo de vida que alia alimentação saudável, habitação e energia providas de forma sustentável? A resposta é sim. Parece utópico, mas, em todos os continentes do mundo existem as chamadas “Culturas Permanentes”, nas quais pessoas vivem em grupos ou em família em sítios de Permacultura, plantando seus próprios alimentos – sem o uso de agrotóxicos -, tratando seus próprios dejetos e utilizando os recursos da natureza local de forma racionada.

O conceito de “Agricultura Permanente” nasceu com os australianos Bill Mollison e David Holmgren, na década de 70, mas se instalou no Brasil somente em meados dos anos 90. Seus princípios estão embasados nas tradições indígenas, guiadas pela lógica básica do universo de cooperação e solidariedade.

A ideia original dos criadores foi desenvolver sistemas de florestas produtivas para substituir as monoculturas de soja e trigo, que são sistemas artificiais responsáveis pelo desmatamento mundial. Imitando-se a flora original do local, mostrou-se possível criar sistemas altamente produtivos e estáveis por si só, que não precisavam de adubo, irrigação nem defensivos. Além disso, tais sistemas também traziam o benefício de recuperar o ecossistema local.

Depois de dez anos implantando essa ideia, percebeu-se que não daria para dedicar-se somente aos sistemas naturais e ignorar outros sistemas vitais para a sobrevivência humana, como os sistemas urbanos (arquitetura, sistema hidráulico, tratamento do lixo), monetários e sociais. Da associação de todos estes sistemas, surge a Cultura Permanente (ou Permacultura).

Hoje, a Permacultura virou um estilo de vida. Através dela, pessoas desenvolvem, de forma totalmente sustentável, áreas humanas produtivas, de modo a suprir suas necessidades essenciais, mas respeitando sempre os ciclos e o equilíbrio natural de cada ecossistema. Assim sendo, os permacultores garantem uma produção alimentar de qualidade, a captação e uso responsável da água potável, a construção de edificações naturais para a moradia, o uso de energia elétrica através de fontes renováveis e limpas e a reciclagem de todo material considerado resíduo ou sobra.

Alguns dos princípios da Permacultura (Foto: Cultura Mix)

Alguns dos princípios da Permacultura (Foto: Cultura Mix)

Dessa forma, a família ou o grupo que consegue se auto-sustentar, produzindo seus próprios alimentos e reciclando seus dejetos, deixa de participar da agricultura devastadora e deixa de poluir.

Nas comunidades permaculturais, o que predomina é o espírito de cooperação e não o de competição, tanto em nível humano quanto na relação homem – natureza. Melhor explicando, na cooperação, soma-se a energia de uns com os outros. Na agricultura permacultural, por exemplo, se uma praga ataca a plantação, o agricultor tenta entender o porquê do ataque e busca soluções alternativas nas quais não se cogita o extermínio químico da praga. Ele chega a plantar alimentos exclusivos para o inseto para que este deixe de atacar a plantação principal e continue a viver, mas nunca declara uma “guerra química” em sua propriedade.

Os resultados são excelentes: ele obtém alimentos de qualidade e limpos, sem contaminar o solo e nem a água. A visão dos permacultores é a de trabalhar em conjunto e a favor da natureza, excluindo a visão de fragmentação do mundo: ele vê o todo integrado, ou seja, sabe que a mudança de um elemento dentro do sistema – por exemplo, o extermínio dos insetos – modifica a situação de todos os outros elementos ligados a ele. A falta dos insetos pode causar um desequilíbrio na cadeia alimentar, por exemplo.

A parceria com a natureza se dá também no modo de implantação dos sistemas produtivos: busca-se implantá-los alinhados com a luz do sol, os ventos e/ou as águas, para que possam extrair destes a energia que precisam, com o mínimo de intervenção humana. E é essa uma das principais regras da Permacultura: “maximizar as conexões funcionais”, como declarou Earle Barnhart, permacultor norte-americano.

Para utilizar as técnicas de criação dos espaços permaculturais, é preciso um método de design, cujos principais quesitos são a observação e o planejamento da área a ser ocupada, para seu melhor aproveitamento. Modificar a estrutura natural da área para agregar recursos de fora não se enquadra nos moldes da Permacultura. Restaurar paisagens degradadas está entre as possibilidades do planejamento das atividades do permacultor.

Na prática

No Brasil, existem pelo menos 25 grandes comunidades, sítios ou casas permaculturais, de acordo com a Rede Permear. Eles estão distribuídos pelo território brasileiro, principalmente nos estados de Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais e Bahia, mas sendo encontrados também no Paraná, no Distrito Federal, no Rio Grande do Sul e no Ceará.

Em geral, quem busca viver nestes locais quer um estilo de vida mais natural, saudável e voltado para a qualidade. Desde famílias até grupos maiores procuram a Permacultura para se livrarem do caos urbano, para plantarem o que comem, para não contribuírem com mais poluição para o planeta. Eles vivem de muitas atividades, comercializam localmente o excedente da produção e oferecem diversas formas de aprendizado a quem for de fora e se interessar.

Um exemplo é a ecovila Terra Una, localizada na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais. Ela é a sede de uma ONG e integra moradia, trabalho, educação e lazer, e vem se consolidando como um centro educacional transdisciplinar de integração rural urbana, onde eles ensinam as técnicas e valores de sua visão de vida sustentável. Muitos jovens têm obtido, na Permacultura, seu primeiro emprego.

Algumas da instalações da ecovila Terra Uma (Foto: Terra Uma)

Algumas da instalações da ecovila Terra Uma (Foto: Terra Uma)

Outros, como o sítio Gralha Azul, propriedade familiar, na Serra da Mantiqueira em São Paulo, abrem suas portas para visitas guiadas, que também são uma fonte de renda para eles. A visita é agendada e, durante ela, são discutidos assuntos muito interessantes, que abrangem agricultura ecológica, compostagem, horticultura, sistemas agroflorestais em aléias, energias renováveis, construções ecológicas, design da paisagem e manejo de água. Tudo isso ministrado por quem entende do assunto, pois o pratica diariamente.

Algumas mudas produzidas no sítio Gralha Azul. Lá, a produção de mudas utiliza apenas composto, areia, água e sementes orgânicas (Foto: sítio Gralha Azul)

Algumas mudas produzidas no sítio Gralha Azul. Lá, a produção de mudas utiliza apenas composto, areia, água e sementes orgânicas (Foto: sítio Gralha Azul)

Existem as que oferecem cursos, como a Tibá, estabelecida numa antiga fazenda do café no Rio de Janeiro, que além de ministrar a respeito da Permacultura, tem muitos outros cursos, como o de bio-arquitetura, construção com bambu, design de ecovilas, saneamento ecológico e muitos outros. Aos interessados, vale a pena uma olhada no site para conhecer tudo que a Tibá pode oferecer (veja no final da matéria a relação de sites dos locais citados).

Tibá mostra que até os telhados podem ser usados para plantação, o que é aplicável em ambientes urbanos também. (Foto: Tibá)

Tibá mostra que até os telhados podem ser usados para plantação, o que é aplicável em ambientes urbanos também. (Foto: Tibá)

Muitos institutos de Permacultura aplicam-se também em pesquisas ambientais e em treinamentos na área de conservação e restauração da natureza. No Brasil, existem oito institutos, como o IPAB (SC), IPA (AM), IPEC (GO) e IPEP (RS). Alguns são financiados pela PAL (Permacultura América Latina) e outros são ligados a sindicatos, ONGs e movimentos sociais. Por enquanto, há pouca ou nenhuma interação entre os institutos e talvez seja isso que falte para que a Permacultura se dissemine cada vez mais no país.

Neste modo de vida que é a Permacultura depositam-se esperanças, pois ele mostra que as atitudes individuais influenciam o coletivo. Talvez neste modelo encontre-se uma forma de salvar o planeta.

Leia mais em:

Terra Una: http://terrauna.org.br/

Sítio Gralha Azul: http://www.sitiogralhaazul.net/

Tibá: http://www.tibarose.com/

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