Do tabu a pauta pública

Laura Fontana

Na entrevista a seguir, conheça a história de uma médica que vivenciou os dois lados da questão:

Você poderia nos contar como foi sua história e por que decidiu fazer um aborto?

R- Eu fiz 3 abortos, seqüenciais, aos 16, entre os 16 e 17 e no final da faculdade. Eu morava no Rio de Janeiro e quando fiz o último aborto estava no último ano da faculdade de medicina. Tinha muitos planos para minha vida e namorava há 5 anos. Fiz os abortos por falta de orientação e por inconseqüência da idade. Há 32 anos não existiam tantos métodos contraceptivos… A gente usava a tabelinha e a pílula do dia seguinte não era comum. Eu queria muitas coisas, e ser mãe, não era um de meus planos, naquele momento, claro. A diferença, com relação a outros casos de meninas que abortam, foi que, por pertencer a uma classe média alta, eu busquei um local limpo e esterilizado. O aborto foi feito sob supervisão e com anestesista, em uma clínica.

Quais foram as consequências da sua escolha?

R- Não tive nenhuma consequência física. Minhas consequências foram emocionais.

Hoje, depois de formada, com um emprego e com uma família constituída, você pensa diferente?

R- Hoje em dia eu não faria [o aborto], sem dúvidas. Recentemente, minha empregada me disse que sua filha de 15 anos estava grávida e que pensava em abortar. Eu sugeri que não o fizesse. Isso porque atualmente, eu percebo a  existência de um conceito cultural diferente. Estou em São Paulo há 26 anos e aqui noto uma maior preocupação das mulheres com sua própria saúde. O nível de instrução também mudou muito e as possibilidades são melhores para as mães mais jovens. Claro que não julgo as meninas que optam por abortar, mas se puder opinar, sugiro que não faça o aborto. Acho que o maior medo das meninas é o de ver sua vida mudando drasticamente, mas hoje em dia, vejo cada vez mais mulheres conciliando a maternidade com o estudo e trabalho. Quando somos jovens, temos a impressão que aquilo [a maternidade] é muito definitivo. As decisões precisam ser tomadas de maneira muito rápida. Você não pensa no futuro, se impede de enxergar o lado bom de ser mãe. No meu caso ainda, eu tinha um relacionamento estável, isso quer dizer que meu filho teria um pai. Não se tratou de um evento ocasional.

E ele? Qual foi a reação do seu namorado na época?

R- Ele me apoiou, mas a decisão foi minha. Só podia ser minha. Mas acho que é uma situação que marca a ambos.

E hoje? Como você lida com o passado?

R- Eu acho que, inconscientemente, o aborto influenciou diretamente minha vida posterior, minhas decisões que viriam mais tarde, como por exemplo, o desejo em adotar crianças. Eu sentia uma ausência muito grande, como se algo me faltasse. Eu tirei uma vida e tinha que, de certa forma, salvar a vida de outra criança, ser mãe.

Como médica, qual a sua opinião sobre a legalização do aborto, tendo em vista as consequências do aborto clandestino?

R- Eu sou à favor da decisão pessoal, do direito de escolha.  As mulheres devem ter o direito de optarem pela maternidade. Existem momentos em que você não está preparada psicologicamente e suas condições não permitem que você dê uma vida digna ao bebê, seu filho. Quanto aos perigos do aborto clandestino, há alguns anos atrás, existia um remédio para gastrite, liberado em farmácias, que, ao ser ministrado em grávidas, gerava contrações uterinas e a mulher abortava. O uso desse remédio era comum na época em que me formei. Mas as contrações eram tão intensas que causavam hemorragias e as meninas não resistiam. Além dessas técnicas por meio de remédios, ainda é muito comum nos abortos ilegais o uso de sondas inseridas no colo do útero para a retirada do feto. É com base nessas experiências e por acreditar no direito à escolha, que acredito que o aborto deveria ser legalizado de forma a evitar tais consequências. Ser mãe é uma coisa muito séria. Você tem que querer ser mãe.

Mas são diversos os casos. Cada situação é uma situação. Nos casos pós violência sexual, por exemplo, nossa orientação hospitalar é dar a pílula do dia seguinte e o coquetel anti HIV. Mas o que acontece é que a mulher acaba se sentindo muito culpada pelo estupro e muitas não procuram ajuda médica porque sentem que o que aconteceu foi provocado por elas. Uma situação muito triste e que ainda é muito comum.

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