Pelo Palácio de La Moneda

Lígia Morais

Eleições presidenciais no Chile vão para segundo turno 

Os militares Alberto Bachelet e Fernando Matthei ainda eram amigos quando chegou o golpe de 1973. Em Antofagasta, no norte do Chile, moravam com suas famílias em casas vizinhas. Colegas de infância, Michelle Bachelet e Evelyn Matthei, com a ditadura de Augusto Pinochet, viram os pais seguirem caminhos bem diferentes. Fiel à Salvador Allende, Alberto foi preso pelo Estado e torturado até a morte, em março de 1974. Fernando se tornou diretor da Academia de Guerra, onde ficara preso o amigo, e foi incorporado ao regime, fazendo parte da junta militar. Michelle e Evelyn se reencontrariam muitos anos depois daqueles dias em Antofagasta.

À frente, o segundo

O primeiro turno não bastou. No dia 17 de novembro, a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, de centro-esquerda, e a candidata governista Evelyn Matthei, de centro-direita, disputaram nas urnas a presidência do Chile. Mesmo com o favoritismo de Bachelet, que obteve 47% dos votos válidos – contra os 25% de Matthei – o segundo turno não pôde ser evitado. Apesar da vitória nessa primeira fase, a alta taxa de abstenção é que parece ser o maior adversário da candidata de centro-esquerda, taxa que chegou a 50% dos votantes.

As candidatas Michelle Bachelet (à esquerda) e Evelyn Matthei (à direita) (Fonte: Martin Bernetti/AFP)

As candidatas Michelle Bachelet (à esquerda) e Evelyn Matthei (à direita) (Fonte: Martin Bernetti/AFP)

Bachelet, exilada durante a ditadura, líder política e ministra da Saúde e da Defesa, se tornou a primeira mulher presidente do Chile. Hoje, é candidata da frente Nova Maioria, que soma aos integrantes da Concertación o Partido Comunista. Matthei, economista e ministra do Trabalho no atual governo do presidente Sebastián Piñera, é candidata da frente chamada Alianza, que reúne a União Democrata Independente e a Renovação Nacional.

 A primeira de Bachelet

A história política de Michelle Bachelet marcou uma série de ineditismos para o Chile. Em 2006, a candidata foi a primeira mulher da América Latina a ser eleita para presidência. No governo, realizou reformas previdenciárias e direcionou a política econômica do Chile para a redistribuição de renda e para a contenção dos efeitos da crise econômica de 2008. Impedida pela oposição e por alguns partidos moderados da base governista, a presidente não conseguiu concretizar as exigidas mudanças educacionais e tributárias. Deixou o cargo em 2010 com grande aprovação – cerca de 70% – mas sem conseguir eleger um sucessor.

Bachelet governou o Chile de 2006 a 2010 (Fonte: AP)

Bachelet governou o Chile de 2006 a 2010 (Fonte: AP)

 Nas novas eleições, Bachelet baseia sua proposta de governo nas reformas tributária, educacional e constitucional. Essas mudanças pontuais foram tema das muitas manifestações que ocorreram no Chile desde 2011. Sob o governo de direita de Sebastián Piñera, movimentos sociais chilenos contestavam não só o governo direitista, mas também os 20 anos que o bloco esquerdista aliado a Bachelet permaneceu no poder depois do fim da ditadura.

É também a primeira vez que duas mulheres disputam como candidatas principais as eleições. E, se as previsões eleitorais estiverem corretas, Bachelet será a primeira presidente da história recente do Chile a conseguir se reeleger (no país, não é possível a reeleição consecutiva).

Voto Voluntário

O ineditismo está também nas primeiras eleições realizadas com a lei de Voto Voluntário do Chile. O novo sistema, apesar de esperadas por especialistas as estatísticas, registrou grande quantidade de abstenções no primeiro turno – cerca de 50%. O Prof. Dr. Wagner Iglecias, gestor de políticas públicas e parte do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina, afirmou que “A alta abstenção observada na eleição chilena provavelmente reflete duas coisas: a crise que a democracia liberal representativa enfrenta neste momento em várias partes do mundo e a percepção que muitos chilenos possam ter tido de que as duas grandes forças políticas do país, a direita e a centro-esquerda não são assim tão diferentes quando no governo”.

Chile foi as urnas no dia 17 de novembro para eleger o próximo presidente (Fonte: Hector Retamal/AFP)

Chile foi as urnas no dia 17 de novembro para eleger o próximo presidente (Fonte: Hector Retamal/AFP)

Pinochet ou não Pinochet?

Renata Peixoto de Oliveira, Dra. em Ciência Política pela UFMG, volta à transição democrática de 1989. “O marco constitucional do país permanece o mesmo, com a vigência da constituição de 1980, que apesar das inúmeras reformas, é a mesma constituição do Regime militar de Augusto Pinochet”, ela diz. A reforma constitucional foi causa de diversas manifestações no Chile, desde 2011.

A Doutora em Ciência Política pela UERJ, Soraia Marcelino Vieira, aponta a necessidade de mudanças no país. “As reformas são questões de suma importância e que necessitam atenção prioritária do próximo governo, tanto para colocar fim ao aparato institucional do regime Pinochet, no caso da reforma constitucional, quanto para se criar uma linha de acesso a direitos sociais”. Soraia ainda completa que “a reforma constitucional é necessária para o desenvolvimento institucional do país, a reforma da educação para o avanço social e, no caso da reforma tributaria, para que haja fundos para investir em políticas sociais e incentivar as pequenas empresas”.

Leia mais: entrevista, na íntegra, com a doutora em ciência política, Soraia Marcelino Vieira.

Em agosto de 2011, estudantes chilenos protestam em Santiago por reformas no sistema de educação (Fonte: Ariel Marinkovic/EFE)

Em agosto de 2011, estudantes chilenos protestam em Santiago por reformas no sistema de educação (Fonte: Ariel Marinkovic/EFE)

Depois do dia 15

Depois do segundo turno, que acontecerá no dia 15 de dezembro, as relações entre o Brasil e o Chile são postas em questão. Soraia Vieira afirma que as relações entre os países não sofrerão grandes mudanças, independentemente do resultado. “Talvez seja possível pensar que haverá mais proximidade entre os governos dos dois países com a vitória de Bachelet, por sua proximidade com Lula e por ser a representante da coalizão de centro-esquerda, contudo, é pouco provável que a vitória da oposição provoque alguma sanção ou retaliação tanto por parte de um quanto do outro”, ela diz.

Renata Peixoto e Wagner Iglecias confirmam a possibilidade de aproximação. “Pela própria coalizão que representa Bachelet, que já governou o país anteriormente, sua ascensão para um segundo mandato representaria maiores possibilidades de diálogo com o governo do PT”, diz Renata. Wagner completa: “Uma vitória de Michelle Bachelet pode representar uma reaproximação do Chile com seus vizinhos sul-americanos, o incremento de relações comerciais com o Mercosul e um passo importante no projeto de integração da continente, representado pela União de Nações Sul-Americanas (Unasul). Uma vitória de Evelyn Matthei representa a continuidade do atual projeto chileno de inserção no cenário internacional, baseado em acordos comerciais bilaterais e na maior participação do país na Aliança do Pacífico, projeto de integração liderado pelos EUA e que tem no Chile, no Peru, na Colômbia e no México os seus principais representantes latino-americanos”. O que resta agora é esperar alguns dias pelo resultado das eleições.

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