Selva!

Agnes Sofia

Uma experiência tão viva e densa quanto a própria Floresta Amazônica

Sexta-feira, 4 de outubro

Recebo um telefonema. É da Oboré, instituição que coordena o Projeto Repórter do Futuro, e que me pergunta se posso fazer uma viagem para a Amazônia entre os dias 20 e 25 de outubro. Sem pensar nos compromissos que já havia marcado há meses para esse período, confirmo meu interesse. Na minha cabeça, só consigo me lembrar dos sábados que passei entre Bauru(onde estudo) e São Paulo, onde fiz o módulo “Descobrir Amazônia, Descobrir-se Repórter”. Durante seis semanas, entre maio e junho, eu e mais vinte e quatro estudantes participamos de conferências com especialistas cujas trajetórias estão intimamente ligadas com a região amazônica.

Depois do telefonema, só penso em duas coisas: no meu cansaço de final de ano e de como será uma loucura abandonar tudo por uma viagem, nos moldes clássicos daqueles relatos de pessoas que deixam tudo para trás para se redescobrir. Eu saberia desempenhar este papel? Para começar, resolvi me apegar ao principal clichê desta história: ignorei planos e confiei no destino.

Sábado, 19 de outubro

Ainda não fiz a mala. Preciso separar blocos de anotação, gravador, câmera… Há um anseio muito grande para ir bem equipada, preparada para não perder detalhe algum da viagem. Mas no final do dia começo a me sentir indisposta, e quando me dou conta, estou com gripe, provavelmente por causa da instabilidade do tempo e do stress dos últimos dias, envolvida no conflito entre aproveitar o momento e aceitar suas consequências, além do medo de não conseguir vivê-lo em sua plenitude.

Ardendo de febre e sem conseguir andar, mantive a calma e resolvi escrever tudo o que não conseguia falar por causa da minha voz. Não estava com medo de acordar naquele estado, estava com medo de melhorar, viajar e voltar a mesma. Seriam somente cinco dias, mas queria que eles me respondessem dúvidas existenciais de duas décadas inteiras. Um desejo que tomava conta de mim, mas que não me fazia ignorar um incômodo que não me contaram que poderia entrar no roteiro de aventureiros: comecei a achar estranho ter que enxergar tudo com tanto deslumbramento. Estava ansiosa para procurar dentro da minha própria nação algo que me reinventasse, e não sei se foi o delírio da febre ou a insegurança da pré-viagem, mas senti o fascínio mais doloroso da minha vida. Afinal, antes de pôr os pés na estrada já sentia que não estava à procura do completo, mas da ausência.

Domingo, 20 de outubro

Quatro cidades em menos de 24 horas. Eu me despedi da minha família às quatro e meia da manhã, na cidade de Praia Grande, e às oito e meia estava em São Paulo com a equipe (composta por boa parte dos alunos do curso, jornalistas da Oboré e pela editora da Revista Samuel).

Por volta do meio-dia, estávamos em Brasília. Lá conhecemos a equipe do Exército que nos acompanharia nos próximos cinco dias: nosso curso é uma parceria entre a Oboré, a Usp(onde tivemos as conferências) e o Exército Brasileiro, que possui um projeto chamado Formadores de Opinião. Nele, escolas e cursos como o nosso podem levar alunos para conhecer a atuação das Forças Armadas na região amazônica.

Recebemos repelente, filtro solar 50 e camisetas “camufladas”, e a expectativa compete com o calor da capital do país. É difícil almoçar no avião e não querer perder nada da paisagem abaixo de nós, acompanhar de perto as últimas horas que restam antes do pouso mais esperado, e assim acompanhar pela janela como as cidades planejadas dão lugar à densidade da floresta amazônica.

Finalmente chegamos. Eu fico com medo de descer, pois sempre me lembro do relato de um professor de história que tive na quinta-série e que nos contou como foi sua viagem ao Egito. Ao sair do avião, ele desmaiou antes mesmo de pisar em terra firme. Isso não acontece comigo, mas o calor de Manaus é invasivo: o sinto atravessando a sola do meu tênis e atingindo meu pé, como se ele estive sendo marcado com ferro em brasa.

Pelo horário da cidade, eram duas horas da tarde, mas se fôssemos considerar o nosso fuso horário, estaríamos perto das quatro horas da tarde. Foi o suficiente para que aquele domingo parecesse eterno, além do fato do sol demorar tanto para ir embora.

Durante o trajeto para o Batalhão, fomos apresentados a alguns pontos importantes da cidade: o local onde estão construindo o Estádio, o Centro de Instrução da Selva (e que visitaríamos no dia seguinte), a região de Ponta Negra, com a sua praia fluvial(abastecida pelo rio Negro), seus condomínios de luxo e o shopping recém-inaugurado e que seria onde terminaríamos o dia, depois de uma rápida passagem no 1º Batalhão de Infantaria de Selva (1º BIS) do Exército, onde deixamos nossas coisas e conhecemos o alojamento onde passaríamos a semana.

Eu fico surpresa com a Manaus que o shopping nos apresenta. Para ir ao cinema você precisa pagar quase trinta reais, e há lojas de grifes famosas, além da praça de alimentação não ser muito diferente de um shopping de São Paulo. Começamos a sentir falta das feiras, do mercado municipal, do centro da cidade e das histórias com cheiro de Amazonas que não encontramos nos três andares do Ponta Negra Shopping.

Ponta Negra Shopping é a mais nova atração do lado mais elitizado de Manaus (Foto: Agnes Sofia)

Ponta Negra Shopping é a mais nova atração do lado mais elitizado de Manaus (Foto: Agnes Sofia)

Segunda-feira, 21 de outubro

De manhã, fomos para o Comando Militar da Amazônia (CMA), onde fomos recebidos por uma apresentação da orquestra do Comando e pelos cumprimentos do Chefe do Estado-Maior do CMA General Jaborandy. Já o conhecíamos porque ele foi o último conferencista do nosso curso, e hoje ele daria uma nova palestra. Além dele, também ouvimos o Comandante Marco Aurélio de Andrade Lima, do 9º Distrito Naval e  o Major Brigadeiro Perez do VII Comando Aéreo Regional (COMAR).

Fomos recebido por uma belíssima apresentação da orquestra (Foto: Agnes Sofia)

Fomos recebido por uma belíssima apresentação da orquestra (Foto: Agnes Sofia)

Assim, conhecemos como cada uma das Três Forças Armadas atuam na região amazônica.

À tarde, fomos ao Centro de Instrução de Guerra na Selva. Conhecido por dar o curso mais completo sobre atuação militar em florestas densas, o Centro recebe, todo ano, representantes das Forças Armadas de vários países.

Fomos recebidos pela mascote do Centro, a onça Simba. Todos nós queríamos tirar foto e cumprimentá-lo, e era nítida sua altivez, sem deixar de lado certa curiosidade e simpatia.

Simba (Foto: Gabriely Araújo)

Simba (Foto: Gabriely Araújo)

À noite, queríamos ir ao centro, mas apenas tivemos tempo para conhecer a fachada do Teatro Amazonas. Após algumas fotos, fomos à praia de Ponta Negra, onde experimentei o meu primeiro açaí na tigela. Mas isso não bastou para diminuir o calor, e fomos todos para a areia. Como sou a única do grupo que cresceu na praia, todos querem saber o que penso daquela, formada de água doce e escura. Eu entro no rio, e sinto aquela água escura, que para mim não é tão diferente da salgada com a qual cresci. De repente, fecho os olhos, e me lembro de como devo me entregar àquele momento, tento esvaziar minha mente e esperar algum começo de transformação libertadora. Mas eu só me lembro do que deixei em São Paulo, e as crianças nadando, o futebol naquela areia tão artificial (e que chamo de areia de parquinho) me deixam com saudades da casa que abandonei há quase dois anos, para estudar no interior. Eu tento me esquecer, e focar na viagem, mas quando me dou conta, estou quase afundando. Todos riem, mas aquela brisa quente me deixa com algo, que talvez seja um pouco mais da ausência que vim buscar naquele lugar.

Paramos no hotel mais luxuoso do bairro e após quarenta minutos de conversa, nos demos conta de que já passam das dez da noite e não sabíamos como voltar. Conseguimos uma carona, e muito agradecidos, organizamos uma caixinha para o motorista. Após receber um pouco mais de vinte reais, ele nos deixa a poucos metros próximo do local onde o encontramos.

E agora? Andamos pela avenida, que está praticamente interditada no sentido em que estamos. Notamos a presença maciça do Exército, e para cada grupo militar que encontramos, fazemos o famoso cumprimento “Selva!”, a fim de que saibam que queremos sua simpatia e sua carona. Mas estão todos ocupados, recapeando a avenida, e então me pergunto que lugar é esse em que até das condições das ruas o Exército deve zelar.

No fim, conseguimos outra carona que nos deixa em frente ao shopping, onde pegamos um ônibus.

Por onde andávamos, gritávamos Selva! (Foto: Danilo Oliveira)

Por onde andávamos, gritávamos Selva! (Foto: Danilo Oliveira)

Terça-feira, 22 de outubro

Dia de conhecer o trabalho das Forças Aéreas. De manhã, fomos ao CINDACTA IV(Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo), responsável pela defesa do espaço aérea e pelo acompanhamento de meteorologia da região, entre outras funções.

À tarde, visitamos a Base Militar Aérea de Manaus, onde conhecemos a defesa antiaérea, que supervisiona a chegada de aviões em solo brasileiro. Vimos uma simulação de Abate, e pude participar. Na primeira vez, errei o alvo e destruí Manaus, mas depois me redimi e salvei todo o Estado. Ou ao menos, quis acreditar que o acerto superou a confusão do erro.

Conhecemos todos os modelos de avião e helicópteros usados, inclusive aquele que nos levaria para o Pelotão de Fronteira: o espanhol Case, um dos aviões mais modernos da Força Aérea Brasileira. Aos poucos, a expectativa para a viagem de quinta-feira começava.

Na Base Aérea Militar conhecemos o avião espanhol Case e o helicóptero Black Hawk, vindo diretamente dos Estados Unidos (Foto: Agnes Sofia)

Na Base Aérea Militar conhecemos o avião espanhol Case e o helicóptero Black Hawk, vindo diretamente dos Estados Unidos (Foto: Agnes Sofia)

Quarta-feira, 23 de outubro

De manhã, conhecemos mais instalações do Comando Militar da 12° Região Militar. Embora estivéssemos ansiosos para o Encontro das Águas, as palestras foram importantes para que conhecêssemos mais as dificuldades dos povos localizados nas fronteiras, principalmente do povoado de Iauaretê, nosso destino no dia seguinte. Localizado em São Gabriel da Cachoeira, é lá que está localizado o primeiro patrimônio imaterial do Livro dos Lugares, documento do Estado que se compromete a preservar os bens culturais da nação brasileira.

À tarde, o momento mais aguardado do dia. Embarcamos no navio Raposo Tavares, rumo ao 9° Distrito Naval. Durante o trajeto, entre músicas e taças de suco de cupuaçu, ouvimos histórias de personagens fundamentais para a atuação da Marinha na Amazônia. Conversei, por exemplo, com uma médica, que emocionou a todos com a história do primeiro parto que fez na região:

Próximo ao Encontro, começaram as promessas. Na minha mente só me lembrava da imagem do dia em que li sobre o fenômeno na escola, e sonhei que um dia o veria. Quando me lembrei de que isso acontecera há quase dez anos, derramei algumas lágrimas, emocionada por saber que, sem querer, realizara um sonho mais cedo do que havia imaginado.

Encontro das Águas (Foto: Agnes Sofia)

Encontro das Águas (Foto: Agnes Sofia)

Fatos que já devem ter ouvido: As águas realmente não realmente não se misturam, mas seguem o mesmo caminho. O rio Negro parece Coca-Cola e o Rio Solimões é obscuro demais, e se eu tivesse sonhado com aquele trajeto, poderia encontrar na passagem o passado, o presente e o futuro nos rios, em mim, na música e no próprio navio.

Quinta-feira, 24 de outubro

Chegou o dia mais esperado pela equipe. Acordamos por volta das cinco e meia, e após um rápido café fomos levados ao aeroporto de Manaus. Lá havia algumas famílias que esperavam obter uma carona no avião que nos levaria para Iauaretê. A prática é muito comum: para chegar à cidade da fronteira, são necessários quarenta e cinco dias de barco, e graças à inexistência de uma rodovia, resta recorrer à aviação regional, uma das mais caras do país: Saindo de Manaus, para ir a São Gabriel da Cachoeira de avião você paga quase R$1000,00, sem contar o percurso que ainda deve ser feito até o povoado da fronteira, localizado a quase trezentos quilômetros do aeroporto regional de São Gabriel.

Conhecemos uma recém-viúva que quer levar o corpo do marido, e fiquei admirada com o modo como contava sua história aos meus colegas. Havia nela o mesmo olhar de destino que encontraria em todas as pessoas que conheceríamos nas próximas horas, e foi difícil descobrir o que aquilo significava.

Depois de quase três horas de viagem, chegamos ao aeroporto de São Gabriel. As famílias vão embora e recebemos novas instruções sobre nossa ida ao povoado. Estão todos ansiosos pela fronteira, mas o fato de estarmos na cidade mais indígena do país já nos deixa animados para a volta, quando vamos conhecer as instalações do Exército naquela cidade.

Voltamos para o Case e após mais uma hora de viagem, estamos no povoado. Camburões usados pelo pelotão nos esperavam, e a diversão passa ser ficar em pé com uma câmera na mão enquanto o veículo percorre estradas de terra, com muitas curvas.

Em cada visita que fazemos, alguém da equipe se voluntaria para fazer um agradecimento. Naquele dia, eu tinha me oferecido. Passei a noite escrevendo o discurso, mas me sentia alheia: será que minhas palavras corresponderiam ao que nos aguardava?

E, finalmente, chegamos na fronteira com a Colômbia (Foto: Agnes Sofia)

E, finalmente, chegamos na fronteira com a Colômbia (Foto: Agnes Sofia)

Mas quando chegamos ao Pelotão, o Coronel Alessio, responsável por assessorar os membros da equipe que se ofereciam para os agradecimentos, me chamou e me disse para manter a calma, mas que, mais importante, era saber falar o que eu pensava, dar prioridade à beleza do que eu veria e não à beleza do que gostaria de dizer: “para eles, que possuem uma vida difícil aqui, disciplinada e distante de muitas coisas, o mais importante é encontrar alguma emoção ou sentimento em comum que vocês poderão partilhar assim que conhecer o Pelotão”.

Presenciamos a formatura, uma cerimônia militar especial de alinhamento de tropas, na qual os integrantes do Pelotão fizeram uma cerimônia em homenagem ao Exército:

Eu me dispersei da equipe, inebriada que estava com o lugar. Ao longe, vi crianças indígenas imitando a marcha dos soldados e me perguntei se elas gostariam de estar no lugar deles quando chegasse a hora.

Conversei com um sentinela que um dia foi uma criança como aquelas. Quando perguntei por que entrou para o Pelotão, ele não soube me responder e me lançou o mesmo olhar encontrado na viúva do aeroporto: uma questão de um destino lógico, que já ditara os acontecimentos e mesmo assim, perguntava aos envolvidos se queriam participar, e a aceitação acontecia.

De repente, olho ao redor e vejo que estão todos em determinado recinto. É hora de falar.

Entro, e todos estão lá. Seguro o papel com o discurso que demorei horas para escrever, mas quem disse que consigo lê-lo? Aliás, quem disse que quero lê-lo?

Mas se não for ele, o que vou dizer?

“Seu nome é muito bonito”, comenta o capitão do Batalhão. Encontro no seu sorriso um pouco de paz, exílio e de gratidão gratuita, e isso basta para que eu comece. Sei que meu discurso está dando círculos, temeroso de não encontrar palavras no meio do caminho, mas não posso deixar de dizer o quanto admiro a escolha de todos presentes, mas de como tento combater a ideia de que são heróis por morarem em alguma região inóspita, e de como me incomoda saber que chamamos isso de sacrifício, já que isso implica admitir que aquela região foi esquecida por nossa sociedade, e que todos nós somos culpados por isso. Então eu comentei como nossa equipe havia ficado um pouco frustrada por não andar por Manaus e não ter sujado os pés de histórias, de ruas escusas, de desespero por ser perder em algum lugar totalmente distante das nossas casas. Afinal, sempre estávamos acompanhados por alguém da Oboré ou tínhamos que cumprir algum compromisso oficial, o que nos deixou sem tempo para aquelas experiências.

Manaus sofre dos problemas de uma típica cidade urbana (Foto: Agnes Sofia)

Manaus sofre dos problemas de uma típica cidade urbana (Foto: Agnes Sofia)

Mas naquele momento, eu concluí que não valia a pena fazer essa reclamação, se na nossas cidades, na nossa rotina, não nos preocupávamos em saber o que estava abandonado e esquecido. Para quê ir ao Norte, se eu não me permitia redescobrir o meu cotidiano e as pessoas e ruas que nunca aparecem nas histórias que consumimos e criamos?

Eu falei mais coisas, mas confesso que não me lembro de mais nada. Quando acabei, estava chocada com o tempo que tinha usado para falar, e envergonhada, esperei as palmas e fui dar uma última volta pelo Pelotão, tentando entender onde estava a inquietação e a catarse do momento, e esqueci que precisaria ser paciente para responder isso.

Uma tatuagem do dia: a bicada de uma arara ciumenta. Eu fui tirar foto com sua amiga sorridente e exibida, que estava na ponta do fuzil de um soldado. Irônico saber que fui vítima da concentração de uma ave, enquanto cá eu estava alegre e boba como aquele bicho de estimação solitário que acaba de rever o dono.

Uma recordação que doeu por algumas semanas (Foto: Agnes Sofia)

Uma recordação que doeu por algumas semanas (Foto: Agnes Sofia)

Voltamos a São Gabriel da Cachoeira. Custa acreditar que é a terceira maior cidade em extensão do país(perdendo para Altamira e Barcelos). Ouvimos uma palestra do General Duarte, Comandante da 2ª Brigada de Infantaria da Selva. Ele explicou como a Brigada foi para a cidade, se mudando de Niterói. O motivo seria a preocupação em aumentar a presença militar na região, algo muito importante, dada a ausência do Estado e a proximidade com a fronteira. Fiquei emocionada com a cerimônia organizada pelos soldados, de diferentes etnias:

Um momento que me chamou atenção na cidade foi o almoço. Na nossa mesa, conhecemos o coronel Miller, recém-chegado em São Gabriel. Ele estava muito animado com a mudança, e nos contou como foi ter morado na Patagônia, na Colômbia, e em várias outras regiões da América. Ele é apaixonado por esportes radicais, e mal vê a hora de escalar a famosa Bela Adormecida, formação rochosa que estava no outro da Base Militar onde almoçávamos. Era um ser de vida nômade e militar, mas ele conversava como se fosse um andarilho, cidadão do mundo, e me perguntei se realmente não o era, e se liberdade precisava mesmo estar livre de estatutos para acontecer ou se ela consistia, justamente, em abrir espaço para regras sem deixar que elas consigam invadir a sua própria forma de nos afetar.

 Sexta-feira, 25 de outubro

A volta foi uma ressaca de saudades.  No aeroporto, os minutos passam lentamente, enquanto fazemos o check-in para a viagem de volta. Antes de partir, nos despedimos do Coronel Barros, e em Brasília foi a vez das equipes de Comunicação das Forças Armadas. A emoção é muito grande quando abraçamos o Major Gonçalo e a Tenente Patrícia, que nos acompanharam e começo a sentir saudades das conversas sobre fotografia com o Johnson.

Muitas colegas choram, mas eu não consigo esboçar nenhuma reação externa. Olho para o lado e o Coronel Alessio está com o braço estendido para mim. Eu retribuo o cumprimento, e aproveito para abraçá-lo, recebo os parabéns que ele não me deu um dia antes. Quando o agradeço, estou pensando nas suas palavras de ontem, que não foram decisivas apenas para o que disse, mas para que a confusão de imagens e sensações adquiridas naqueles dias fossem organizados  rumo a algum tipo de aprendizado.

Depois de mais três horas de viagem, chegamos a São Paulo. Estava chuviscando, eram quase seis horas e eu lamentei o percurso que ainda teria até Praia Grande.

Eu me despedi de todos, e vi que muitos estavam tristes, querendo voltar para aqueles dias. Mas para mim, foi estranho como, ao entrar na estação de metrô, só consegui pensar em Bauru e em todas as coisas deixadas para trás. Mas quando pensava, tudo tinha gosto de bombons de cupuaçu e de açaí, e as cores dos cenários montados nos meus planos eram verdes como o colar que comprei das índias de São Gabriel, e um mês depois eu vejo que se eu não voltei diferente é porque agora, todos os dias, tais tons conseguem manchar tudo o que eu era antes de uma forma tão instantânea que não há mais tempo para medos, apenas para atos.

Eu diria que é uma reinvenção parcelada, mas então eu me lembro dos rios e do destino aceito por escolha e concluo que posso ir a qualquer lugar, passar anos procurando mais ausências que não adianta, sempre vou encontrar o reencontro, e isso já é o suficiente para preencher dias e dias de retorno.

Que assim seja (Foto: Agnes Sofia)

Que assim seja (Foto: Agnes Sofia)

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