Caia na estrada e perigas ver

Bibiana Garrido

A luta pela descriminalização dos caminhantes e malucos de estrada que estão reconfigurando a expressão cultural hippie no Brasil

– Olha menina, venha cá. Deixa eu te dar um presente aqui. Vou fazer rapidinho, você vai ver…

Enquanto ele procurava dentro de sua mochila, eu fiquei ali esperando. Estávamos num festival de MPB em Ilha Solteira e eu só estava passando com uns amigos quando parei um pouco pra olhar as pulseirinhas que aquele cara fazia. Ele não estava só, tinha uma amiga, mas ela ficou ali no canto fumando enquanto ele falava comigo. Finalmente, ele encontrou os fios de cobre enrolados. Pegou um alicate. Eu fiquei ali olhando, com um pouco de pressa, mas fiquei.

– Vou te fazer um anel em forma de estrela, que é pra iluminar os seus caminhos.

E contou toda uma história, que eu poderia inventar pra deixar tudo mais poético, mas sinceramente não lembro. Sei que aquele papo demorou e, enquanto conversávamos, ele fazia meu anel. No fim, ele botou o presente na minha mão. O anel mais bonito que tenho hoje. Eu agradeci. A essa altura sua amiga já conversava comigo também. Ele, um pouco tímido, sugeriu que eu desse uma contribuição pelo trabalho. Eu dei cinco reais – não tinha muito mais que isso, na verdade.

Outra vez, num bar aqui em Bauru, troquei uma cerveja – nesse dia eu não tinha dinheiro nenhum mesmo – por um chaveiro de cobre, que, eu tenho que dizer, o tal artesão fez MUITO habilmente pra mim. Estávamos num lugar escuro, ele com certeza estava meio bêbado e, mesmo assim, o chaveiro saiu perfeito depois de algumas entortadas no fio de cobre com um alicate. Hoje, de tão bonito e legal que era, roubaram esse chaveiro de mim. Mas tudo bem, tranquilo. Acho que esse é o espírito. Pelo menos ainda tenho o anel.

Os hippies

O movimento hippie nasceu das mobilizações de contracultura dos anos 60, que aconteceram principalmente nos Estados Unidos, e chegou ao Brasil pouco tempo depois, sendo assim traduzido e adaptado para nossa realidade cultural. O contexto sócio-político brasileiro, então, resultou no surgimento dos malucos de estrada ou malucos de BR, como se identificam os hippies brasileiros, que, aliás, rejeitam completamente essa nomenclatura de origem estadunidense. Foi pensando nas divergências que se consolidaram e na valorização desses atores sociais que o coletivo Beleza da Margem decidiu, após livre divulgação de vídeos documentários, produzir, de forma totalmente colaborativa, um longa-metragem sobre o assunto.

“Esta figura mestiça, híbrida, o ‘maluco de estrada’, é antes o resultado de encontros, e sua especificidade resulta destas combinações infinitas e da reformulação de diversas heranças. Além disso, sua frequente postura de nômade, de viajante, reforça ainda mais sua condição de antropófago, de ‘canibal’, pois devora e reconfigura aquilo que encontra – os lugares, as paisagens, as histórias, as matérias-primas, a forma de ser e viver das pessoas com as quais se depara – sendo permeado destes encontros e desencontros, destas ambivalências, destas tensões, memórias e esquecimentos, que alimentam o perpétuo movimento, seu perpétuo tornar-se, vir a ser”.

Coletivo Beleza da Margem

O coletivo é composto por malucos de estrada e artesãos que se indignaram com sua falta de reconhecimento no país. Eles vêm desenvolvendo um trabalho de documentação e divulgação de sua luta e estilo de vida desde 2009, data da primeira exposição/protesto “A beleza da margem, à margem da beleza” nas ruas de Belo Horizonte. Infelizmente, o protesto pelos direitos dos artesãos, que foi resultado de uma fiscalização severa na véspera, também foi alvo das autoridades. Os participantes tiveram sua arte e bens pessoais apreendidos por fiscais municipais, além de sofrerem repressão por parte da polícia militar.

(Foto: Malucos de Estrada/Coletivo Beleza da Margem)

(Foto: Malucos de Estrada/Coletivo Beleza da Margem)

“Você só descobre se é livre de verdade quando tenta ser”.

Rafael Lage, artesão e documentarista.

 Desde então, Rafael Lage, documentarista, fotógrafo, malabarista e também artesão, procura documentar e denunciar os abusos de autoridade cometidos pelo governo e pela polícia através de seu trabalho dentro do coletivo. Além disso, o Beleza da Margem busca  também ressaltar a beleza existente no grupo cultural dos malucos de BR, que acaba ficando às margens da sociedade, sendo vítima de padrões de beleza pré-estabelecidos e difundidos por estereótipos, sem contar a descriminação pela sociedade.

 A criminalização do artista: por uma sociedade que eu possa ser quem eu sou!

O primeiro trabalho em vídeo documentário produzido pelo coletivo Beleza da Margem teve início em abril de 2011, já dentro de uma campanha para a arrecadação de fundos para a filmagem do longa “Malucos de Estrada”. A minissérie de vídeos, que você pode assistir aqui, fala sobre e mostra a repressão sofrida pelos andarilhos do asfalto, além de denunciar a violência vivenciada por eles em seu principal ambiente de trabalho: as praças públicas. Nessas praças, os malucos vendem seu artesanato em troca de poucos reais, apenas o bastante para sobreviver. Seu lema? “Não é comércio, é cultura!”.

Apesar de seguirem uma ideologia voltada para o bem, os artesãos não deixam de ser vítimas do preconceito da sociedade conservadora, da violência autoritária dos governantes e dos “resquícios da ditadura” presentes neste mesmo governo, como afirma o site do coletivo. Através de meios audiovisuais e da internet, o Beleza da Margem documenta, denuncia e divulga as mais absurdas e revoltantes ações truculentas, que acabam por destruir não só todo um trabalho artesanal, mas também as esperanças daquele ou daquela no infeliz dia da fiscalização. Numa delas, um artesão havia deixado seu material na praça enquanto almoçava por ali. Quando voltou, os fiscais da prefeitura, protegidos pela polícia, já tinham levado tudo.

“Em uma sociedade mantida pela mentira, qualquer expressão de liberdade é vista como loucura”.

Emma Goldman, anarquista.

Recentemente, moradores de rua de Florianópolis foram alvo de um protesto pedindo sua retirada do bairro, por preocupação com o “turismo local”, de acordo com a justificativa dada pelos manifestantes. Tal fato ilustra o posicionamento elitista de grande parte da sociedade brasileira, que se esquece de que, querendo ou não, é igual a todos os outros brasileiros e estes deveriam usufruir dos mesmos privilégios que nossa high society usufrui. A ocupação de um espaço público, por hippies, artesãos, moradores de rua, quem quer que seja, reflete apenas o descaso com quem escolhe uma vida alternativa, ou, na triste maioria dos casos, com quem não tem essa opção de escolha.

A política de “limpeza” por parte dos governantes e da mídia golpista tem seu sucesso na veiculação de reportagens sensacionalistas, como é mostrado no vídeo, que podem formar e, inevitavelmente, constroem as mais horríveis opiniões acerca de simples artesãos. “A expressão cultural tratada aqui ainda não se encontra consagrada/legitimada pelo establishment/instituições como integrante do arsenal da diversidade cultural brasileira, fato que pode ser corroborado, dentre outros fatores, pela postura marginal/contra-hegemônica de seus atores, pela invisibilidade social que sofre e pelo fato de haver certo desconhecimento por parte dos gestores públicos da realidade cultural sobre a qual atuam, principalmente quando nos referimos às expressões culturais não consagradas”, defende o site do Beleza da Margem.

(Foto: Malucos de Estrada/Coletivo Beleza da Margem)

(Foto: Malucos de Estrada/Coletivo Beleza da Margem)

“O artesanato gerado neste ofício está impregnado dos valores simbólicos, políticos e da cosmovisão deste grupo cultural, refletindo sua discordância com a lógica capitalista da produção em série e do acúmulo de capital (o que está explicito na prática artesanal da manufatura e na lógica não capitalista que norteia a negociação da contribuição pecuniária em troca do artesanato), seu ideal de simplicidade e negação da propriedade privada (geralmente expõe seu artesanato em um pano estirado no chão), constituindo-se também num dos modos como o artesão comunica-se com a sociedade, compartilhando valores, conhecimentos e símbolos, já que, enquanto expõe e negocia seu artesanato, compartilha com o interessado sua história de vida e sua visão de mundo”.

Coletivo Beleza da Margem

 Livre, grátis e sem restrições

O documentário “Malucos de Estrada” está sendo financiado de modo colaborativo para alcançar a marca de 66 mil reais, necessários para sua produção, finalização e divulgação. Através das doações de 1786 colaboradores, o projeto tem, até o momento em que escrevo, R$56.930,00. Vale lembrar que se o objetivo do crowdfunding não for atingido completamente, todo o dinheiro é retornado para os respectivos doadores e, assim, o documentário não seria produzido. “Estamos nos esforçando ao máximo para que o filme fique pronto e disponível na internet durante o mês de Janeiro e, para isso, estamos dividindo nossa equipe para trabalhar em duas frentes. Uma parte ficará por conta do processo de edição e finalização, enquanto outra parte irá cumprir uma nova sequência de filmagens”, esclarece a página do coletivo no Facebook. Caso você queria contribuir, o link para doação é esse aqui.

Durante os meses de dezembro e janeiro a equipe realizadora do documentário começa uma mini turnê por cidades brasileiras, como forma de divulgação e exibição do filme, sem, entretanto, adotar um viés mercadológico – inclusive, o grupo pede até por doações de milhas para tais viagens. As datas ainda não estão definidas, mas algumas localidades já tem visita confirmada: Porto Alegre (RS), Campo Grande (MS), São Paulo (SP) e Arembepe, Arraial D’Ajuda e Vale do Capão (BA). Os malucos de estrada também consideram a possibilidade de visitar Curitiba e Florianópolis (RS), Manaus (AM) e Santarém (PA).

(Foto: Malucos de Estrada/Coletivo Beleza da Margem)

(Foto: Malucos de Estrada/Coletivo Beleza da Margem)

“Essas ‘cidadanias culturais’ não somente inscrevem as ‘políticas de identidade’ dentro da política de emancipação humana, como também repensam profundamente o próprio sentido da política, colocando em evidência até que ponto as instituições liberais democráticas ficaram pequenas para acolher as múltiplas figuras da diversidade cultural que tencionam e rompem as nossas sociedades justamente porque elas não cabem nessa institucionalidade”.

Jesús Martín-Barbero, antropólogo e filósofo.

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