Isso não é um mochilão

Herculano Foz

Isso não é um mochilão porque, de fato, essa não é uma viagem daquelas em que a gente sai com pouco dinheiro, sem nenhum destino, contando com a sorte e a bondade das pessoas, e, acima de tudo, somente com uma mochila nas costas. Este relato também não será uma espécie de diário de bordo, afinal, já se passaram quase 3 anos desde que a viagem aconteceu. Vários momentos e situações, ainda que especiais, ficaram no tempo e fugiram da memória.

Era 2011 e eu, no auge dos meus 17 anos, estava um tanto quanto ansioso. Com tanto medo de avião que não consegui comer. No dia seguinte estaríamos eu, meus pais, minha irmã, meu irmão e minha (agora ex) cunhada. Sete pessoas partindo numa viagem – meio maluca – de 15 dias pela Argentina. Tínhamos um roteiro mais ou menos certo, dois carros por alugar e quase nenhum hotel marcado. Desembarcamos, como quase todo turista das terras portenhas, na capital Buenos Aires. Fizemos, é claro, tudo o que os turistas tradicionais fazem: visitamos os pontos turísticos – Puerto Madero, La Boca, Palermo, Recoleta, Casa Rosada e coisa e tal.

Roteiro estabelecido para a viagem

Roteiro estabelecido para a viagem

 Tudo muito legal, tudo muito bacana. Mas foi a música o que mais me chamou a atenção desde o começo. O que tocava em todos os cantos – desde a chegada ao aeroporto – era uma espécie de reggaeton, e, mesmo não tendo nenhuma conexão com o ritmo, ficou decidido que eu precisaria comprar alguns cds durante a minha passagem pelo país. Assim como a música de lá, a relação entre as pessoas e as praças também me chamou a atenção. Por todas as praças e bosques que passamos, encontramos gente de todas as idades descansando – e até dormindo – no gramado, apreciando o som de algum artista de rua, lendo ou fazendo um piquenique.

Praça no tradicional bairro Recoleta, em Buenos Aires (Foto: Gabriel Foz)

Praça no tradicional bairro Recoleta, em Buenos Aires (Foto: Gabriel Foz)

Depois de alugar os carros, saímos de Buenos Aires em direção a Córdoba, com direito a uma parada em Rosário para o almoço. De Rosário não me lembro nada, mas de Córdoba, lembro que a primeira impressão, definitivamente, não foi a que ficou. Chegamos lá no fim da noite, não achamos o hotel que tínhamos reservado, e a cidade ainda tinha um aspecto velho e de abandono. Depois de muito procurar, por sorte achamos um hotel com vagas para todos nós e logo a primeira impressão da cidade sumiu. Coincidentemente, o hotel que achamos ficava em frente a Manzana Jesuítica, declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, onde localiza-se um conjunto de edifícios construídos pelos jesuítas durante o século XVII. Uma vista deveras interessante!

Parque na cidade de Villa Carlos Paz, na província de Córdoba (Foto: Gabriel Foz)

Parque na cidade de Villa Carlos Paz, na província de Córdoba (Foto: Gabriel Foz)

Depois de descansar da longa viagem, aproveitamos um pouco de Córdoba e partimos para Cosquin, uma cidadezinha com cara de interior, e onde estava rolando a 51ª edição do Festival Nacional de Folclore, um dos festivais mais importantes da cultura popular na América Latina. Pessoas declamando poesias nas praças e escolas, danças típicas no meio da rua, feirinhas com artesanatos de várias províncias da Argentina: tudo isso a céu aberto e acessível a todos que lá estavam.

No dia seguinte, partimos para Mendoza, mas com paradas em algumas cidadezinhas pequenas no caminho, como Carlos Paz, Villa de las Rosas e Quines. Também conhecemos Alta Gracía, munícipio da província de Córdoba que atrai muitos viajantes que procuram a casa que Che Guevara morou na infância, hoje transformada em museu, e também a bela Estância Jesuítica, considerada Patrimônio Cultural da Humanidade. Em Mendoza, reservamos o dia para conhecer as tradicionais vinícolas. Visitamos umas três diferentes, com direito a degustação de vinhos e azeites. Um passeio meio entediante, mas que vale pelas degustações!

Depois de Mendoza, partimos em direção aos Andes. Escolhemos a estrada Caracoles de Villavicencio, também conhecida como La Ruta de un Año, devido às suas 365 curvas. O caminho é esburacado e relativamente perigoso, e a estrada de terra seca é sinuosa, mas as paisagens compensam desde o início: primeiro, o semiárido, depois, a pré-cordilheira.

A famosa Ruta de un Año, com algumas de suas curvas (Foto: Herculano Foz)

A famosa Ruta de un Año, com algumas de suas curvas (Foto: Herculano Foz)

Mais à frente, no sentido Chile pela rota nº 7, há um povoado, ponto de parada para as excursões de escalada, onde fica a Puente del Inca, localizada em meio a paisagem exuberante das Cordilheiras dos Andes, próximo ao Cerro Aconcágua e a apenas 20 km da fronteira com o Chile. A localidade é famosa pela formação geológica que criou uma ponte natural sobre o rio Las Cuevas. Visitando o local, pode-se ver as ruínas do Hotel Puente del Inca, construção luxuosa erguida em 1925 e parcialmente destruída numa avalanche em 1965 que arruinou grande parte do povoado.

E, enfim, chegamos até ele: Aconcágua, o ponto mais alto das Américas, e também de todo o hemisfério sul, sendo somente superado pelos gigantes do Himalaia, na Ásia. Este foi, com certeza, o ápice da viagem.

 Parque Provincial Aconcágua, o ponto mais alto das Américas (Foto: Herculano Foz)

Parque Provincial Aconcágua, o ponto mais alto das Américas (Foto: Herculano Foz)

A vista dispensa comentários (a foto explica melhor a sensação de estar lá). Partimos de volta para Mendoza, e, de lá, para Buenos Aires. Mais dois dias na capital para comprar os famosos ‘regalos’. E assim se encerra nosso passeio por terras portenhas. Mais que uma simples viagem, nossa caminhada (ora de carro, ora a pé) rendeu experiências ímpares e um contato único com parte da cultura argentina. Não se prender à capital foi essencial, já que minhas maiores lembranças estão nas menores cidades.

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