Meu livro é de papel

Adriana Kimura

O telefone tocou novamente. Mulher, acaba de passar dos 40, rabo fino e alto de cabelos  começando em loiro natural e despontando em loiro forjado.  Traços enormes, olhos azuis. O vestido em tubo não aperta nada, combina com a bolsa. Um panapaná tatuado e envelhecido escapa das costas aos ombros. A família não é tão típica. Três mães, nenhum pai, a menina é mais velha que Pedro. E o Pedro é meu nariz de cera, sugestão do amigo jornalista acompanhante de fast food. 

Pedro veio nos oferecer Club Social, correu por todo o perímetro da praça de alimentação e depois foi fazer a corte a uma garotinha na mesa vizinha, perto da idade dele, – um ano e sete meses – mas a namoradinha estava ocupada fazendo toda a bagunça que uma menina pode fazer até ter de ser mocinha – o tempo é curto. Não é que a preocupação das meninas sejam homens a partir de determinada idade, eles nunca são prioridade. Pedro foi explorar a bolsa da mãe.

Dali há 2 minutos, o bebê retorna, fazendo graça, com um iPhone nas mãos, jogando Angry Birds. Pedro está aprendendo que basta, para a vida, o cérebro entretido, empenhado, – e nem tão empenhado assim – que ele não precisa brincar suando e correndo. A mãe tenta administrar todas as atualizações do telefone, que toca novamente, e novamente. Aqui a criança está aprendendo que, para o almoço, basta a boa intenção do pai, uma ‘ligação’ – assim ele pode trabalhar e estar com a família ao mesmo tempo. Pedro só desabou em lágrimas porque a mãe teve que guardar o celular: “No carro eu te devolvo, vamos embora.”

Book

E, aqui, a escolha de um uso de termo nos revela, devolve porque é dele.

Você pode fazer sem sair de casa, é rápido e simples. Pedro vai ter um Twitter, pelo poder de concisão. Vai ter celular, por um tempo, até ser dispendioso trocar vozes. Ele vai usar o 3G para memória própria, acervo Google sempre à mão. O Facebook catalizará a maior parte das demais ações e relações de que ele possa precisar. Os aplicativos de jogos ele conhece já antes do segundo ano completo (de idade). Virão os amigos eficientemente congratulados em aniversários, o perfil detalhado do que Pedro quiser para si, de si, e os posicionamentos políticos. Discutir machismo é um click pro Tubby ou pro Lulu.

Os livros não são mais de papel e isso, para mim, parte como ofensa pessoal. No plano das ideias, não há couchê, jornal ou qualquer gramatura mais alta de que o aroma permaneça.E que terrível é esse conceito de gastar pouco tempo em tudo. Eu queria saber como fica o deleite imensurável de empenhar muitíssimas horas em algo que não seja tão grandioso – porque a grandiosidade é isto mesmo, o empenho. Manoel de Barros ainda diria que a importância das coisas há que ser medida no encantamento que elas nos produzam. E que tipo de encantamento nos pode alcançar em tão curtos Twittes, só nos dedos, com tudo na mesma consistência acrílica e digital?

Sabe-se mais o quê hão de inventar para o Pedro adulto. O tablet já chapa tudo que é do mundo para o alcance da tela sensível – atenção ao uso do termo ‘sensível’, dia-a-dia menos palpável – no que se configura na representação de tudo aquilo que se torna possível realizar nas pontas dos dedos. E ouvi dizer que andam a trabalhar na projeção disso tudo para o ar. Existe isso? Projeção no ar? Bem, seria uma dimensão a mais, fora da tela. O Pedro vai poder viver qualquer coisa sem ter que viver mesmo. O conceito nós já temos: avatares. O kinect nos transporta a uma realidade qualquer, o The Sims ou o Second Life são a possibilidade de viver outras vidas, caso nos baste acreditar no virtual – e eu diria que nos anda bastando ultimamente.

A denúncia de uma cena que eu vi por aí. Usando o nariz de cera como lide, em defesa dos apaixonados por papel, suor e gasto de tempo. O Pedro, na praça de alimentação, chorando pelo iPhone. Como e porquê, eu não sei.

O telefone tocou novamente. E, cada vez menos, é o meu amor.

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