Sexta. Seis. Suor

(Foto: Marcelo Santos)

(Foto: Marcelo Santos)

William Orima

Barra Funda, seis horas. Não cheguei num bom horário. É a hora de pico, a hora do “rush”. Devia ter pegado o ônibus anterior. Agora estou aqui, enlatado com mais centenas – milhares? – de pessoas.

Você encontra todo o tipo de pessoa no metrô, principalmente nos horários de pico. Um extrato de várias camadas da sociedade. Sociólogos e antropólogos devem amar isso aqui, com seus inúmeros estudos de caso.

Hoje é uma sexta quente. O suor escorre pela minha testa. Pela nuca da moça na minha frente. Pelo braço do senhor ao meu lado. Ou talvez seja pelo meu braço.

Sou do tipo que prefere colocar os fones de ouvido, fechar os olhos e fugir para outro lugar. Muita gente faz o mesmo, seja ouvindo música, lendo um livro ou com a cara colada à tela do smartphone. São os universos particulares – onde o particular mal consegue existir.  Afinal, nada cria laços tão instantâneos quanto a proximidade proporcionada dentro de um metrô lotado. Você passa até a questionar a física: dois corpos realmente não ocupam o mesmo espaço?

Existem aqueles que preferem rir da situação de linha a linha. Outros gritam suas críticas ao sistema para todos e para ninguém em particular. É fácil ficar revoltado. Pense no (suposto) cartel.

Transporte público cheio é um problema para qualquer um, mas é um problema particularmente pior para alguns. Baixos, gordos, idosos, deficientes e, principalmente, mulheres. Como homem, vejo que ser mulher é uma tarefa árdua. Ser mulher em um ambiente como esse é ainda mais difícil, pelas razões que todo mundo conhece. Mulheres que amam outras mulheres, como é o caso do casal a três ombros de mim, recebem olhares nervosos, de desaprovação e até cobiça. Quem não consegue guardar a sujeira para si, verbaliza o preconceito. Defensores da família e dos bons costumes, julgando a moral do alto de seus tetos de vidro.

Corinthians-Itaquera. Os rostos se viram para direita, para a obra inacabada do estádio que no futuro abrirá a Copa. Através do vidro, dá pra ver até o pilar caído. O acidente da semana passada que matou dois funcionários. Tragédia. Mas a Copa do Mundo 2014 é no Brasil. Orgulho.

Melhor parar com as divagações, tenho que fazer a baldeação para Guaianases. O trem não espera.

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