As cores do Oriente

Sophia Andreazza

Eu não sei bem que ideia eu fazia do Oriente antes minha mãe viajar para lá e me contar cada minúcia de sua experiência, contaminando minha visão e me dando a sensação de que eu tinha passado por tudo ao seu lado. Durante os quinze dias que esteve longe de casa, acompanhada de três amigas, me ligava sempre que podia pelo Skype. Saía pela rua com o telefone e me mostrava a agitação, as cores e as pessoas gritando numa língua estranha que cercavam a entrada de seu hotel em Istambul. Numa dessas ligações, estávamos conversando sobre nosso dia, até que um homem a cutucou e, num inglês arranhado, pediu para me cumprimentar. Sorridente, ele apareceu na frente da câmera, acenando para mim como se eu fosse sua conhecida de muito tempo atrás.

As cores do Oriente (Foto: Gália Andreazza)

As cores do Oriente (Foto: Gália Andreazza)

Em outubro de 2012, Gália Martinez Andreazza — minha mãe — partiu numa viagem com três amigas. O objetivo principal delas era conhecer as pirâmides do Egito, mas não havia nenhum vôo direto para o Cairo. Decidiram-se por alguns dias em Istambul. “Não faríamos apenas uma conexão na Turquia. Começaríamos a nossa viagem por lá, como uma espécie de introdução ao Oriente. Como a Turquia tem um pé na Europa, seria mais fácil absorver a cultura muçulmana, que é bem mais radical no Egito”, conta ela.

Istambul (Foto: Gália Andreazza)

Istambul (Foto: Gália Andreazza)

Gália ficou hospedada na cidade velha, na zona européia de Istambul. A zona asiática da cidade é mais moderna, assemelhando-se a qualquer outra grande metrópole, enquanto o lado europeu abriga monumentos e construções seculares. Como ponto de visitação obrigatório, ela destaca a Praça Sultão Ahmet (o Hipódromo de Constantinopla), que abriga a Mesquita Azul e a Hagia Sofia. “A Basílica de Santa Sofia é maravilhosa. Imagens de santos católicos e de símbolos islâmicos se sobrepõe. A Santa Sofia passou por muitas transformações, e talvez seja isso a faça dela uma obra tão bonita. A Mesquita Azul também é linda, mas um pouco restrita. Eu não pude vê-la por inteiro”.

A viajante também visitou o Palácio Topkapi, a antiga sede do poder otomano, a Cisterna da Basílica (ou ou Palácio Subterrâneo) e o Grand Bazar. Este último é um ótimo lugar para comprar quase qualquer coisa, mas, principalmente, para exercitar as habilidades de barganha. “Para os turcos, é uma ofensa não negociar o preço dos produtos”, conta Gália.

Hagia Sofia (Foto: Gália Andreazza)

Hagia Sofia (Foto: Gália Andreazza)

O Grand Bazar (Foto: Gália Andreazza)

O Grand Bazar (Foto: Gália Andreazza)

 A visão que Gália tinha do povo muçulmano não mudou enquanto esteve na Turquia. Foi bem-recebida por todos, mas não teve um contato íntimo com as pessoas e com a cultura turca. Os costumes muçulmanos, bem como as crenças que os motivavam, ainda lhe causavam estranheza. “Eu via meninas adolescentes andando na rua todas cobertas, e achava muito injusto”, conta. Essa visão mudou depois de visitar o Egito.

 O objetivo principal de minha mãe e de suas amigas com a viagem foi cumprido: elas visitaram as Pirâmides. “Foi realmente uma experiência indescritível entrar na Pirâmide. Lá dentro é muito sufocante e apertado; é um verdadeiro sacrifício chegar ao centro, onde ficam as tumbas”, Gália recorda. A visão do deserto do Saara e as relíquias expostas no Museo do Cairo também a encantaram, apesar de a grande satisfação de sua jornada ter sido o contato que teve com o povo muçulmano.

A Cidade do Cairo e o Deserto do Saara (Foto Gália Andreazza)

A Cidade do Cairo e o Deserto do Saara (Foto Gália Andreazza)

“Conhecemos profundamente as pessoas locais, e eu comecei a entender a cultura deles como eles a enxergam, não como o ocidental a vê, de um modo totalmente distorcido. O povo muçulmano é pintado como o inimigo do mundo. Isso não é verdade. É um povo cordial e sofrido. Fundamentalismo, infelizmente, existe em qualquer lugar”, comenta Gália. Na época de sua viagem, os egípcios já estavam agitados politicamente. Não obstante, Gália e as amigas sentiram seguras e bem acolhidas como turistas. “A cidade do Cairo estava completamente vazia. Pouquíssimos turistas, além de mim e das minhas amigas. Isso foi bom pra nós, porque não pegávamos fila para entrar em lugar nenhum, mas era claramente ruim para o povo de lá, que sobrevive graças ao turismo”.

Como mulher, sentiu-se respeitada e não percebeu nenhum tipo de preconceito. Entendeu que a curiosidade que as mulheres ocidentais têm com as muçulmanas é recíproca. Foi conversando com seu guia que ela começou a compreender um pouco mais sobre a cultura muçulmana. “Meu guia explicou que, para as mulheres, não é um martírio usar aquela roupa. Elas têm em tão alto conceito o próprio corpo que o preservam das pessoas na rua, pois só uma pessoa muito merecedora pode vê-lo”.

 Gália posa para foto junto de jovens muçulmanas na Turquia (Foto: Gália Andreazza)

Gália posa para foto junto de jovens muçulmanas na Turquia (Foto: Gália Andreazza)

 “A experiência mais marcante que eu tive foi no Egito. Fomos a um mercado chamado Kanel Khalili numa sexta-feira, que é o feriado deles. Um táxi nos levou até lá. Quando chegamos, ainda era de dia. Nos empolgamos muito, porque era tudo muito diferente, tudo muito exótico, e acabou escurecendo. O motorista do táxi que nos acompanhava começou a ficar tenso. Estava muito cheio e, realmente, as pessoas começaram a vir pra cima de nós. Para eles, as estranhas éramos nós. As únicas turistas do lugar. Queriam nos vender coisas, falar com a gente. Quando saímos do mercado, no caminho até o carro, várias pessoas pararam para falar com a gente. Queriam nos ver. Uma família muito alegre nos parou para tirar foto. No momento da foto, uma muçulmana deu seu bebê recém-nascido para que eu segurasse no colo. Isso me marcou muito, porque prova a segurança que eles têm em nós. Uma confiança que nenhum ocidental teria”.

As Pirâmides do Egito (Foto Gália Andreazza)

As Pirâmides do Egito (Foto Gália Andreazza)

 Algumas experiências nos mudam para sempre. Minha mãe chegou de sua viagem com mais malas do que partira. Uma das malas era verde-clara, estampada com camelos torpes, e trazia um tapete vermelho e imenso que mudou a decoração da sala. O tapete, uma imensa romã de cristal, incontáveis olhos turcos, delicado copos, pires e colheres de vidro, com desenhos dourados e azuis e um mês inteiro de comida apimentada: minha mãe queria trazer um pouco do Oriente para Sorocaba. Em quinze dias, ela foi capaz de mudar sua visão sobre todo um povo, de deixar seus preconceitos caírem por terra e de se apaixonar por outro continente. Quando ela chegou em casa, havia uma expressão triste no seu rosto. De saudade, ela me disse.

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