Rolihlahla, Nelson, Madiba, Mandela

Lívia Lago

Conheça um pouco da história do grande homem que atendia por todos esses nomes

Liberdade, Igualdade e Fraternidade. O lema foi criado pelos franceses, mas foi na África, o gigante continente tão diminuído pelo resto do mundo, que essas palavras tiveram sua essência captada. Muitos podem proferir o famoso lema, podem escrevê-lo nas paredes ou até mesmo no próprio corpo. Mas poucos mostrarão a importância que essas três palavras tem para construir uma sociedade melhor como fez Nelson Mandela.

(Foto: Forbes)

(Foto: Forbes)

A grandeza deste homem todos conhecem (talvez nem todos a compreendam, o que é lamentável). Primeiro presidente da África do Sul, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, “Pai da Pátria” moderna sul-africana, o maior símbolo da luta contra um dos mais absurdos e intolerantes regimes já criados. Mas o que poucos devem conhecer é a história que antecede a todos esses feitos. Afinal, qual é a história de Madiba? Com certeza é tão fascinante e tão simples como ele próprio. Pois é difícil encontrar origem mais humilde do que deste homem que, para mim, foi o maior líder e o maior homem que já existiu.

Sua história se inicia em “Um lugar distante, um pequeno distrito afastado do mundo dos grandes eventos, onde a vida corria da mesma forma como há centenas de anos.” É assim que Mandela descreve a aldeia onde nasceu em sua autobiografia. Filho de  Nkosi Mphakanyiswa Gadla Mandela com Nosekeni Fanny, a terceira esposa de seu pai, Mandela foi criado com seus doze irmãos. Tanto seu pai como sua mãe eram analfabetos. Na época, era conhecido como Rolihlahla Dalibhunga Mandela, nome dado por seu pai, que significa “aquele que ergue o galho de uma árvore”.

Dentro do contexto familiar, alguns membros influenciaram e inspiraram Mandela. Seu pai era chefe local da tribo, de quem se recordava como “orgulhoso e rebelde, com um senso obstinado de justiça que também detecto em mim.”. Quando perdeu o pai, aos 9 anos de idade, o pequeno Mandela ficou sob os cuidados do rei da tribo Jongintaba, que também era seu tio. Figura marcante em sua vida, Jongintaba esteve com Mandela em momentos importantes. Desde o ritual da circuncisão aos 16 anos e o primeiro terno de Mandela, até um presente do tio quando o sobrinho entrou para a Fort Hare, a primeira universidade sul-africana.

Rei Jongintaba, tio e tutor de Mandela (Foto: Wikipedia)

Rei Jongintaba, tio e tutor de Mandela (Foto: Wikipedia)

“A educação é a arma mais forte que você pode usar para mudar o mundo.”

A educação inicial que Mandela recebera foi a mais simplória possível: perguntando e observando. Desta forma, ele cresceu perguntando aos mais velhos, ouvindo suas histórias e observando os costumes e rituais da tribo. Aos sete anos, começou a frequentar a escola primária existente em uma vila próxima: um único cômodo com teto de zinco e chão de terra batida. Foi lá que recebeu o nome Nelson de sua professora, seguindo o costume de dar nomes ingleses às crianças que lá estudavam.

Mandela sempre estudou em escolas metodistas, cuja doutrina espiritual é seguida por sua tribo. Na escola preparatória Clarkebury Boarding Institute – um colégio exclusivo para negros da elite – teve uma pequena, porém marcante experiência. Ao conhecer o diretor Harris, Mandela, com temor, apertou sua mão. Essa foi a primeira vez que ele tocou em um branco.

Aos 21 anos foi para a universidade. A instituição era pequena, tinha apenas 150 alunos, mas foi ali que Mandela teve grandes experiências. Participou de uma manifestação contra a baixa qualidade da comida servida e até superou o próprio preconceito juvenil ao descobrir que um de seus amigos não era circuncidado. Antes, reagia “até mesmo com repulsa”, depois aprendeu que se deve aceitar os outros como iguais e não julgá-los segundo seus próprios costumes. Essa foi uma lição que Mandela jamais esqueceu, e jamais abandonou.

Após sair da universidade, Mandela passou alguns anos como errante, morando no subúrbio, sem conseguir um emprego e sofrendo com o preconceito da elite branca. Até que teve um encontro com o homem que mudaria sua vida: Walter Sisulu. Negro de pai branco, Sisulu sempre foi um ativista. Conseguiu um emprego ao novo amigo de assistente em um escritório de advocacia judeu – os únicos que contratariam um negro para o cargo.  Mais tarde, Mandela viria a abrir o seu próprio escritório. O primeiro escritório advocatício negro do país.

Em 1942, Sisulu dá outro “empurrãozinho” na vida de Mandela. Um convite para ingressar ao CNA (Conselho Nacional Africano), partido político que viria a se tornar a maior oposição ao Partido Nacional e seu regime de Aphartaid. É neste momento que, já consciente do abismo que separava os negros dos brancos, Mandela inicia sua luta contra o racismo.

Mandela com o terno que ganhou de Jongintaba (Foto: Wikipedia)

Mandela com o terno que ganhou de Jongintaba (Foto: Wikipedia)

“Você não é amado porque você é bom, você é bom porque é amado.”

O primeiro casamento de Mandela, na verdade, foi para Mandela. E nunca chegou a ocorrer. Quando ainda na universidade, seu tio Jongintaba havia arranjado um casamento para ele e outro para seu filho Justice. Mas os dois não almejavam um casamento arranjado com jovens que nunca haviam visto. Queriam que seus casamentos fossem fruto do amor. Por isso, os dois fogem para Joanesburgo. Naquela época, tudo que Mandela tinha para a fuga era o terno que ganhou do tio e que, após cinco anos, tinha mais remendos do que tecido original.

Seu primeiro casamento de fato foi em 1944 com Evelyn Mase, sobrinha de Sisulu. Com ela teve quatro filhos: a primeira menina chamada Makawize que faleceu aos nove meses, a segunda menina que recebeu o nome da irmã e dois garotos, Madiba Thamberkile e Margatho. Em 1949, o Aphartaid foi instaurado. Mandela e Sisulu se viam em uma verdadeira guerra política pelo fim do regime segregacionista. Ao passo que Mandela se empenhava cada vez mais na sua luta política e social, Evelyn, que era completamente avessa à política, se queixava da falta de tempo do marido para a casa e os filhos. O casal se divorciou em 1956.

Mandela e Evelyn em 1944 (Foto: Wikipedia)

Mandela e Evelyn em 1944 (Foto: Wikipedia)

Enquanto enfrentava o Julgamento por Traição, trâmite do regime Aphartaid para eliminar as organizações de oposição (especialmente o CNA), Mandela redescobriu o amor. Isso aconteceu quando viu pela primeira vez Winifred Zanyiwe Madikizela. Ela estava parada em um ponto de ônibus com seu uniforme de enfermeira. A imagem ficou gravada em sua memória. Como um presente do destino, Winifred apareceu no escritório de advocacia dias depois para tratar de uma causa. E em meio ao caos que estava sua vida, Mandela ainda encontrou tempo para se dar uma segunda chance: casou-se de novo. No entanto, este também não foi seu “para sempre”. Mandela e Winnie se separaram em 1992 por motivos pessoais.

Mandela e sua segunda esposa, Winnie (Foto: Munaluche Bride)

Mandela e sua segunda esposa, Winnie (Foto: Munaluche Bride)

“O impossível é só uma opinião.”

Mandela venceu no amor, mas acabou perdendo no jogo político armado pela oposição. O líder foi para a prisão duas vezes: em 1960 e 1964. Na primeira vez, ficou preso por um ano. Na segunda, por 26 anos. Mas isso não o fez desistir. Mandela se tornou um verdadeiro guerrilheiro, que se propôs lutar até o fim. “Durante a minha vida, dediquei-me a essa luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca, lutei contra a dominação negra. Acalentei o ideal de uma sociedade livre e democrática na qual as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e realizar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer.”.

Mesmo preso, Mandela era assunto mundo afora, visto como um ícone da liberdade e da justiça. Tal imagem positiva deixou o governo sem saída a não ser libertar o mártir sul-africano. Após conquistar sua liberdade, Mandela viu sua luta ser recompensada. Seu país teve o regime político reformulado, se tornou democrático e o Aphartaid se tornou uma lembrança, obscura, mas que teve fim. Em 1994 Mandela foi eleito presidente em 1994. O primeiro presidente negro na primeira eleição democrática da África do Sul.

O querido Madiba se foi este ano, para a tristeza do povo africano. Mas, como ele mesmo já disse: “A morte é inevitável. Quando um homem fez o que considera seu dever para com seu povo e seu país, pode descansar em paz.”. É, Madiba… Você vai deixar saudades. Mas não se preocupe, pois com certeza você está entre aqueles que podem descansar em paz.

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