Um novo passado

Agnes Sofia

2013 foi o ano em que a política foi esclarecida no passado e no presente; confira algumas descobertas que poderão reconstruir a história oficial

O ano de 2013 foi o ano em que houve o desenrolar do caso do Mensalão, um dos maiores escândalos da política brasileira e que resultou na prisão controversa de alguns dos envolvidos. Houve a descoberta de outro mensalão e esse foi o ano das manifestações de junho, momento apontado, por muitos, como o instante em que “O Gigante acordou”.

Mas não houve efervescência apenas no presente. A Comissão Nacional da Verdade e suas unidades municipais e estaduais começaram a divulgar os primeiros documentos que devem estar no relatório a ser entregue no ano que vem na comemoração dos cinquenta anos do golpe militar. Em várias cidades do país, as comissões instauradas descobriram informações que poderão mudar radicalmente o modo como a época mais brutal da História Brasileira é contada nas escolas.

Separamos quatro de algumas das principais informações que devem constar no relatório final da Comissão Nacional em 2014

1.A morte de Juscelino Kubitschek

No último dia 10 de dezembro,  a Comissão da Verdade Vladimir Herzog,  da cidade de São Paulo, divulgou um relatório com 90 indícios de que o ex-presidente do Brasil Juscelino Kubitschek foi assassinado, enquanto viajava na rodovia Dutra. Até então, a versão oficial de sua morte era a de um acidente de carro, quando o Opala em que estavam o ex-presidente e seu motorista teriam se chocado com um caminhão após terem sido atingidos por um ônibus.

Peça de metal encontrada no crânio de JK aumentou as suspeitas (Foto: IML)

Peça de metal encontrada no crânio de JK aumentou as suspeitas (Foto: IML)

Em entrevista para a comissão, Serafim Melo Jardim, secretário particular de Juscelino durante os nove meses que antecederam à sua morte, declarou que o ex-presidente se sentia vigiado. As suspeitas aumentaram depois do depoimento do  motorista que revelou à comissão  que teria sido pago para se responsabilizar pelo acidente. É ele quem estava dirigindo o ônibus Cometa que atingiu o Opala em que estavam Juscelino e seu motorista, antes que o carro se chocasse com o caminhão.

Outro indício apontado no relatório está no material metálico encontrado no crânio de Geraldo Ribeiro, motorista do ex-presidente, o que aumentou as suspeitas de uma armadilha política

2.A morte de Jango

Presidente deposto pelo golpe militar de 1964, João Goulart ( 1919 – 1976), morreu no exílio, no Uruguai. À época, o óbito oficial declarou que o ex-presidente foi vítima de um ataque cardíaco. Mas sempre houve suspeitas de familiares e amigos de que Jango também teria sido vítima de agentes da Operação Condor. Em 2007, o jornal “Folha de São Paulo” divulgou um depoimento de Mario Neira Barrero, ex-agente de inteligência uruguaio que afirmou que Jango teria sido envenenado a mando de Sérgio Fleury, à época delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Desde então, surgiram novos indícios, e em maio de 2013 a Comissão da Verdade de São Paulo decidiu que realizaria a exumação dos restos mortais do ex-presidente,  marcada para o dia 13 de novembro.

A família de Jango lutou por quase dez anos para que a exumação do ex-presidente fosse realizada (Foto: Arquivo Nacional)

A família de Jango lutou por quase dez anos para que a exumação do ex-presidente fosse realizada (Foto: Arquivo Nacional)

Após a exumação, o corpo foi levado para Brasília, onde houve uma cerimonia para devolver, de maneira simbólica, o mandato ao ex-presidente. E embora o processo de perícia tenha começado, o seu resultado pode demorar a sair, pois talvez tenha que aguardar o desenvolvimento de novos recursos tecnológicos, dependendo da substância ingerida pelo ex-presidente e do modo como pode ser detectada nos seus restos mortais.

3.Guerrilha do Araguaia

Durante o ano, alguns documentos começaram a esclarecer um dos maiores massacres políticos ocorridos durante o regime militar. A guerrilha do Araguaia foi o principal grupo de combate ao golpe instaurado pelos militares. Ela atuou no Norte do País, onde boa parte dos guerrilheiros foram encontrados e fuzilados por agentes do governo.

Além de solicitar o levantamento dos militares que participaram das operações que encontraram os guerrilheiros, a comissão analisou uma série de documentos encontrados no Arquivo Público de São Paulo que dão mais informações sobre a descoberta do esconderijo dos guerrilheiros. Um deles contém o endereço de um dos guerrilheiros, e depoimentos de ex-militantes da ALN(Ação Libertadora Nacional, uma das organizações formadoras da guerrilha), sobre detalhes da prisão e tortura dos militantes que não estavam mais no esconderijo do Norte.

Documento pode ajudar a entender um dos maiores massacres políticos ocorrido durante o regime militar (Foto:Correio do Brasil)

Documento pode ajudar a entender um dos maiores massacres políticos ocorrido durante o regime militar (Foto:Correio do Brasil)

A  descoberta da Comissão, além de revelar mais detalhes do massacre, inocenta o ex-militante Pedro Albuquerque, que ao desertar da guerrilha com a esposa, foi preso pelos militares e teria revelado o esconderijo. Com o documento, foi possível concluir que isso de fato aconteceu, mas quando Albuquerque fez a revelação, as agentes já teriam o endereço há muito tempo e a declaração do desertor apenas confirmou a informação que possuíam

4.Empresas e sindicatos

Outra conclusão da Comissão se refere à perseguição política sofrida por trabalhadores durante a época do regime militar. Segundo Rosa Cardoso, uma das coordenadoras da Comissão, o regime “ deixou como legado a interrupção do processo de ascensão da classe trabalhadora e perdas salariais até hoje não recuperadas”.

Trabalhadores vítimas de perseguição política poderão ser indenizados (Foto:  Petroleiros)

Trabalhadores vítimas de perseguição política poderão ser indenizados (Foto: Petroleiros)

Sindicalistas que colaboram com a comissão alegam que mas de 8.500 trabalhadores sindicais foram perseguidos. A comissão abriu um levantamento das empresas que teriam colaborado para o regime, e entre elas estão a Petrobrás, a antiga Telesp(hoje pertencente à  Vivo) e a Cosipa.

Ao final da investigação, a Comissão deve propor uma lei de indenização das empresas aos trabalhadores e familiares que teriam sido vítimas do período.

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