Voto de confiança

Lígia Morais

No Chile, quinze de dezembro, Jean De Mulder seguiu para um dos locais de votação para eleger a nova governante do país. Apesar de morar agora no Nordeste do Brasil, Doutorando em Ciências Políticas da UFPE, o pesquisador voltou para o Chile, seu país de origem, e pôde acompanhar a reeleição de Michelle Bachelet, com mais de 60% dos votos. Jean foi uma das 5,6 milhões de pessoas que compareceram às urnas no segundo turno, que, de acordo com o serviço eleitoral chileno, contou com menos de 50% dos eleitores. Interessado em Políticas Públicas e Economia Política Internacional, o pesquisador comenta e analisa o resultado das eleições do país, que agora confia na presidente eleita para promover profundas transformações políticas.

Entrevistado

Entrevistado

Mais informações sobre as eleições no Chile aqui

Quais as diferenças políticas entre o primeiro governo de Bachelet e a atual postura adotada pela presidente reeleita ?

No primeiro mandato, de 2006 a 2010, a governante teve atuação moderada em temas sociais e educativos. Gerenciou algumas mudanças na saúde, na legislação trabalhista, manteve a economia estável e em crescimento, teve custos políticos pelo fracasso do Sistema Público de Transporte de Santiago, e começou a mexer com algumas das demandas estudantis.

Agora, em seu segundo mandato presidencial, inclui em seu programa de governo profundas mudanças na política, na área social e na econômica. Entram como propostas a reforma tributária, a transformação da educação de ensino superior em gratuita e a alteração da atual Constituição – herança de Pinochet, as mudanças políticas constitucionais pretendem compor um sistema plenamente democrático.

Também entram em pauta a distribuição de renda no país, que apesar de ter a maior renda da América Latina, mostra altos índices de desigualdade social, e a política externa. Bachelet mencionou que priorizará as relações com seus vizinhos da América Latina, ponto criticado pelos partidos de oposição. Sobre o caso, acho que a América Latina deve passar das palavras para a ação, já que temos um enorme potencial econômico, energético, alimentício, e podemos fortalecer a região criando valor agregado a nossas commodities.

Michelle Bachelet retorna à presidência do Chile.

Michelle Bachelet retorna à presidência do Chile. 

A coalizão de Bachelet reuniu partidos de propostas contrastantes. Como isto pode ajudar ou prejudicar a presidente em seu governo?

É verdade. Os partidos que apoiam Bachelet tinham originalmente propostas contraditórias, mas pouco a pouco acabaram moldando um só eixo programático de governo. É importante lembrar que a vitória de Bachelet não representa uma volta radical para esquerda, pois a colisão dos partidos que apoiam a presidenta, vão desde os democratas cristãos, socialistas, radicais, socialdemocratas até os comunistas.

Para poder responder a pergunta, no entanto, devemos esperar o término do mandato de Bachelet, para assim podermos analisar se os partidos que apoiam atualmente a presidenta eleita foram leais ao seu programa de governo e se alinharam no objetivo nacional, ou se os partidos fizeram apenas jogos políticos e de interesses partidários, corporativos ou individuais. Assim, o êxito das reformas propostas pelo governo de Bachelet, dependerá do comportamento dos líderes políticos.

Para promover as mudanças políticas que prometeu, Bachelet depende da maioria do Congresso. Os políticos chilenos apoiam a presidente e as reformas?

Michelle Bachelet terá maioria no Congresso e na Câmera dos Deputados, mas não maioria para realizar mudanças tão profundas mencionadas em seu programa de governo. Os chilenos, em sua maioria, apoiam as mudanças propostas, mas o seu programa de governo requer um apoio de todos os partidos de sua base. Me atreveria a afirmar que o êxito das reformas estará no apoio irrestrito dos partidos a estas propostas de governo. É uma oportunidade histórica para realizar estas mudanças em momentos de estabilidade econômica, social e maturidade política do Chile.

As mudanças, como mesmo tem dito a presidente eleita, serão graduais e não terminarão nos próximos quatros anos de seu mandato presidencial. De fato, o mais provável é que ela deixe ao fim de seu mandato, as mudanças de uma nova instituição mais democrática no Chile. No nível de reformas educacionais, enfrentará duros entraves no dentro de seu próprio partido, já que a carreira universitária no Chile está apoiada num modelo de classes. Mas uma sociedade que é baseada na origem socioeconômica, tende a perpetua-se e explorar socialmente.

As manifestações estudantis este ano são um reflexo disso. Algo similar ocorre no Brasil, os jovens entendem claramente essa distonia entre o econômico e o mérito, entre o político que assume para exercer o mandato público de governar em nome dos eleitores e não em beneficio ou interesses próprios. As mobilizações dos estudantes deveriam ser uma oportunidade para que os políticos aproveitem esse capital humano e encaminhem essas demandas como oportunidade de aperfeiçoar nossas democracias.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s