O 1 de 1001

Adriana Kimura

Se forem 1001 lugares para ir antes de morrer, este é o motivo de passarem dos 1000

A questão é um lugar. Eu me lembro do dia em que a professora Edil, de geografia, explicou: os lugares são espaços vivenciados pelas pessoas – e deu um exemplo sobre a casa da nossa avó, onde sempre há memórias, as nossas e as lembradas por outros. Vivenciar. O lugar é Marília, interior de São Paulo. Natal a Natal, sempre voltamos a nos repetir por lá.

O Terminal Rodoviário Interestadual "Comendador José Brambilla"  foi inaugurado em 2003, com projeto diferenciado e moderno (Foto: fatounesp.blogspot)

O Terminal Rodoviário Interestadual “Comendador José Brambilla” foi inaugurado em 2003, com projeto diferenciado e moderno (Foto: fatounesp.blogspot)

Quando passávamos pelo posto policial rodoviário, já era considerado que havíamos chegado, mas a minha irmã mais nova sempre imaginou que Marília era só a casa da vó, com a vizinha, e meus tios. Ela entendia quando o carro parava diante do quintal – o mesmo da fita do meu batizado, em 93 – e meu pai descia para abrir o portão branco, que nunca há de se render a controle remoto. Sempre havia bolo salgado para a janta.

O sol se despede por volta das oito e meia passadas da tarde, na direção da Igreja Santo Antônio, da Avenida Santo Antônio – onde se casaram meus pais -, por trás de um pé de romã. Não vamos mais ao Clube dos Bancários, o Estádio do MAC foi fechado por um kit contra incêndios fora de validade, mas já resolveu o problema. O Yara Clube teve cume de sucesso à época dos carnavais de serpentina – antes do casamento de meus pais – e o único que restou foi o Chaplin. Agora, lá, um moço se veste a caráter e anda lembrando Tempos Modernos, enquanto nós damos conta de uma pizza de strogonoff.

Perto do aeroporto – que, outro dia vi na TV, merece mais atenção, em face do de Bauru, que representa a região  – e do Bosque Municipal, reside toda nostalgia que um tal ‘lugar’ pode carregar. É o completo interior, no clichê de tudo. Temos casas nobres, praças de esportes para senhores e senhorinhas, carrinho de lanche e cheiro do mato. Meu tio mora lá. À manhã de Natal, poética só no norte das américas, estivemos deste lado da cidade. Aqui, a essa altura do 25 de dezembro, quando se sai de casa, está tudo de folga, flagrado completamente fora de serviço, num atraso que acomete até a Lua de ontem.

 Inaugurado em 1938, o Aeroporto de Marília opera com vôos regulares diretos para Bauru, Campinas e para outros municípios de todo o Brasil (Foto: Skyscrapercity)

Inaugurado em 1938, o Aeroporto de Marília opera com vôos regulares diretos para Bauru, Campinas e para outros municípios de todo o Brasil (Foto: Skyscrapercity)

A Avenida Esmeralda está bastante movimentada. O Café do Lado – recomendo o doce da casa, branco – mudou para o lado mesmo, o antigo virou um açaí. Abriram Subway, Valdir Sucos e uma infinidade de lojas de grife. Do lado de lá, antes da linha férrea, sobrevive uma pista de caminhada às rachaduras em raízes de árvores. Perto da rodoviária em formato de chapéu, quase ao fim da avenida, há uma salão enorme de festas, onde meu tio casou uma filha, que já se separou.

Av. das Esmeraldas tem o mesmo nome de um dos dois shoppings da cidade e apresenta espaço reservado para caminhadas (Foto: Skyscrapercity)

Av. das Esmeraldas tem o mesmo nome de um dos dois shoppings da cidade e apresenta espaço reservado para caminhadas (Foto: Skyscrapercity)

O Centro Comercial nós enfrentamos, mesmo na véspera da Noite Feliz. Levei uma bolsa antiga, de couro, para consertar no sapateiro perto do Mercadão e visitamos uma daquelas pistas de skate, não muito distante dali, de vista para o Tauste, supermercado. Depois, descobri que meu vô cantou minha vó, pela primeira vez, há uma esquina e seis décadas dali. Uma praça perto do Estádio Municipal nunca me tinha parecido ser localizada ali. Ficava de frente para a casa da minha outra avó, costumávamos desenhar-nos as silhuetas com pedaços de pedra, riscando a calçada. Parece bem menor – o lugar.

Levei uma mochila, porque me parece que a maioria das coisas está sempre lá. Recomendaria um livro, para quando essas pessoas de interior nos sabem mostrar o quanto ainda têm tempo de sobra – e sempre o terão -, mas não perca a oportunidade de passar horas observando o nada. Você acaba ouvindo burburinhos de gente antiga, manias de gente nova. O jeito particular de conhecer os outros tempos e as histórias nas viagens ganha algum requinte nesta: as histórias são tuas. Marília é sempre um bom “lugar”, mas, pra garantir a dica, vai pra casa da tua vó – não tem erro.

O pôr-do-sol em Marília (Foto: Adriana Kimura)

O pôr-do-sol em Marília (Foto: Adriana Kimura)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s