Do prazer ao vício, da dependência à liberdade

Camila Pasin

Há muitas razões pelas quais as pessoas acabam se envolvendo com o escuro mundo das drogas, como antecedentes familiares, influência de amigos, festas, traumas, dentre outras. E o que parecia ser apenas uma simples curtição, ou uma única experiência “só pra experimentar”, acaba colocando a vida do usuário de cabeça pra baixo. Além de desencadear diversos problemas na saúde do dependente químico, a droga também destrói relações, tanto no âmbito social e familiar quanto no profissional.

Com apenas 14 anos de idade, Leandro se envolveu com a cocaína e o álcool, que acabaram se tornando os protagonistas de sua vida, no lugar de seu emprego e família. Hoje, com 22 anos, Leandro faz tratamento contra a dependência química na Comunidade Vida e Paz de Bauru, e já se sente outra pessoa, consciente dos erros que cometeu e convictamente disposto a ajudar aqueles que encontram-se na mesma situação.

Ex-dependente de drogas, Leandro trata-se em casa de reabilitação através de terapias espirituais e ocupacionais (Foto: Camila Pasin)

Ex-dependente de drogas, Leandro trata-se em casa de reabilitação através de terapias espirituais e ocupacionais (Foto: Camila Pasin)

Leia a entrevista na íntegra e conheça a história de Leandro:

Como você iniciou o uso das drogas?

Acho que um pouco pelas companhias que eu tinha, por andar sempre com pessoas mais velhas que eu, com festas, essas coisas… Quando fui ver, já estava usando. Isso com 14 anos. Usei cocaína e álcool.

Quais foram as consequências que você sentiu?

No início, a gente acha que tem certo controle da droga, “eu paro na hora que eu quero” e tal. Aí você começa a usar com mais frequência e começa a achar que você está no auge, com as festas, baladas. E, na hora que você vai ver, você está no fundo do poço. Começa a perder tudo. Tudo que tem valor começa a se distanciar, como a família, mulher, emprego, tudo. Você fica só na droga. Nada na sua vida vai crescer, você só vai para o fundo, para o buraco.

Como você decidiu buscar ajuda? Como foi seu contato para chegar aqui?

Eu e minha esposa estamos juntos há nove anos, desde meus 14 anos de idade. Pouco depois de conhecer ela, eu também conheci as drogas. A gente tem um filho de dois anos e oito meses. Nesse finalzinho, eu vi que eu estava no limite mesmo, perdi serviço, a família já estava a ponto de não ajudar mais. Nessa época, eu e minha esposa já estávamos separados, eu pedi pra voltar com ela, eu morava sozinho, e ela falou “eu volto com você, mas só casando e ficando firme mesmo”. Ela é evangélica, aí a gente voltou e casou. Voltamos por mim, primeiramente, porque eu precisava de ajuda, e pela minha família, porque eu vi que se eu não procurasse tratamento, eu ia perder tudo. Agora eu to firmão aí.

Como é o tratamento de vocês aqui?

Aqui, realmente, quem quer se tratar não pode reclamar de nada. O tratamento, no começo, não posso falar que é um mar de rosas, não, que é tudo fácil. Não é! Muda totalmente sua rotina porque, lá fora, você fazia tudo que você queria, na hora que queria. Aqui tem regras, né?! Mas você se adaptando, fica fácil, porque tem muita coisa que a gente torna difícil. Pra mim, está sendo bom. Muitas das coisas que já passamos, outras pessoas daqui já viveram também. Então não tem escape.

E o que você tem pra dizer às pessoas que estão passando pela mesma situação que você já enfrentou?

Eu realmente acho que tem que buscar ajuda do céu mesmo, tem que pedir pra Deus porque, se você ficar na vida que estava, é buraco, não é vida. Lá fora, a bandeja é cheia, as oportunidades vêm de fartura. Eu acho que a força tem que vir de Deus, tem que buscar Deus porque, se você não focar nisso, é só buraco.

Como é a rotina de vocês aqui?

É legal porque, pra mim, o tratamento é 100% espiritual. É palavra acima de palavra e é isso aí que dá força. Se você for buscar força no homem, você entra num dia e sai no outro.

Quanto às nossas atividades, tem toda uma rotina. Tem a terapia ocupacional, que fazemos tapete, teatro, futebol, academia. Aqui só fica parado quem quer. Na verdade, não fica, porque não pode ficar parado. É obrigatório, você gostando ou não tem que fazer.

E você comentou que sua esposa é evangélica. Você também já tinha esse contato com a religião?

Eu já tive, eu era desviado da Igreja. Comecei a ir pra Igreja por causa da minha esposa, depois comecei a ir por mim mesmo. Só que a gente largava e ia pro mundo, depois voltava pra Igreja. E aí não é legal, né, meu?! Ou é mundo ou é Igreja. Pra quem conhece a palavra, é bem pior do que pra quem nunca teve contato, porque você já sabe as consequências que vai sofrer.

Agora, pra mim, está sendo bom porque tenho o apoio de toda a minha família, o que ajuda muito. Ajuda porque você sabe que quando você sair daqui você tem toda uma estrutura lá fora de novo. Eu tinha perdido o meu emprego, eu trabalhava com o meu pai. A visita que eu não esperava aqui era dele, foi uma das primeiras que veio, e já deu força pra caramba, um ânimo. E ele já falou que posso contar com o serviço com ele de novo lá fora. Tem muitos aqui que vêm porque nem a família quer mais eles dentro de casa. A gente abandona a família por causa da droga, a família fica em segundo plano. Vem a droga, droga, droga. Tudo que você tem, não basta. Eu mesmo, era pra ter conquistado tanta coisa. Perdi tudo. Tenho duas irmãs formadas, eu não estudo, parei. Tá louco, isso não é vida não. Ainda bem que eu vim pra cá cedo, vim pra cá na hora. Depois que eu ficasse velho, que que eu ia buscar?!

E quais são seus planos pra quando terminar o tratamento?

Eu não quero só terminar meu tratamento mas eu também quero, quando sair daqui, prosseguir com ele e ajudar outras pessoas que se encontram na mesma situação que eu já estive. Porque, na verdade, não adianta nada eu vir aqui, me tratar e encerrar. Aí eu estaria sendo orgulhoso, sabendo que eu poderia ajudar o próximo e não fazer minha parte lá fora. Eu sei o que essa pessoa passa. Outra coisa também: se hoje tá assim, imagina quando meu filho crescer e tiver minha idade, como o mundo vai estar… Então eu tenho que vigiar em tudo isso daí e cuidar. Eu não quero que meu filho viva o que eu já vivi, jamais. Espero que eu possa ajudar muita gente lá fora. Tenho que ajudar!

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