No olho do furacão (literalmente!)

Lívia Lago

E se a sua viagem contasse com uma “aventura surpresa”: fugir de um furacão!

Todos os anos, no verão, o litoral norte-americano sofre com os furacões. Em 2005, essa temida temporada foi a mais ativa da história: foram 15 furacões e 4 deles atingiram a categoria 5*. A temporada foi a mais destrutiva, causando 2.280 mortes e danos registrados em 128 bilhões de dólares. Agora, imagine estar em meio a toda essa tensão, todo esse caos. Imagine ter que fugir de um furacão! A atual designer Lílian Lago (e também minha querida “tata”), de 25 anos, teve que passar por isso. Só que, na época, ela era apenas uma jovem estudante de 17 anos que estava fazendo intercâmbio.

Burburinhos na escola

Foi assim que Lílian descobriu que o furacão Rita iria atingir a cidade de La Porte – Texas, onde estava hospedada. Os estudantes não falavam em outra coisa se não para onde iam se refugiar com suas famílias. Seu receio conforme ouvia os burburinhos aumentava. O fato se tornou inegável quando ela chegou em casa e acessou o Weather Channel – um canal americano que transmite previsões meteorológicas 24 horas por dia. O “Rita” – como chamavam os americanos, acostumados com este tipo de fenômeno – estava se aproximando do litoral texano. De acordo com os meteorologistas, ele iria atingir a pequena La Porte no dia 23 de setembro.

Viagem forçada

Viajar é muito bom… Exceto quando fazemos isso para fugir de um desastre natural! Nada de pensar em roupas, no perfume preferido, naquele óculos de sol bacana, muito menos em maquiagem. Comida e água são o que importa. Todo o resto fica na casa e é por isso que os americanos que moram em regiões propensas a esse tipo de fenômeno constroem uma espécie de “quarto de segurança”.  É um quarto sem móveis nem janelas onde colocam todos os objetos de valor da casa e que correm o risco de serem estragados de alguma forma. Foi neste quarto que todos os pertences e lembranças brasileiras que Lílian tinha ficaram guardados. Como último ato de precaução, a família prega tábuas em todas as janelas para que não sejam quebradas pelos ventos (que neste caso chegaram a 285 km/h).

Fechando a casa antes de partir (Foto: Lílian Lago)

Fechando a casa antes de partir (Foto: Lílian Lago)

Um pré-SOS

Antes de sair, Lílian foi aconselhada por nossos pais a ligar para o Consulado americano explicando sua situação. Apesar de não haver um protocolo para este tipo de caso, a mulher que a atendeu foi bastante compreensiva. Após trocarem telefones e endereços, Lílian havia conseguido um abrigo no pior das hipóteses. Era a casa da própria atendente.

Ninguém é deixado para trás. Nem a Tinker Bell! (Foto: Lílian Lago)

Ninguém é deixado para trás. Nem a Tinker Bell! (Foto: Lílian Lago)

É hora de partir

A família saiu de casa às 5 horas da manhã de quinta-feira (22/09) e já se deparou com inúmeros carros na estrada. O destino da família que estava hospedando Lílian era uma casa de veraneio do sobrinho de seus “pais”, em Livingston. A cidade ficava a 146 km de La Porte – o que daria uma hora e meia de viagem – mas eles só conseguiram chegar lá às 4 horas da tarde devido ao congestionamento. O clima era de apreensão e tristeza, afinal se existe um povo que tem paixão pela sua terra é o povo texano, e, apesar dessas fugas fazerem parte de um ritual anual, é muito difícil para eles abandonarem suas casas (alguns deles não arredam o pé!). O medo de encontrar tudo destruído ao voltar é muito grande.

O trânsito é intenso durante toda a viagem (Fotos: Lílian Lago)

O trânsito é intenso durante toda a viagem (Fotos: Lílian Lago)

Um belo refúgio

Quando finalmente chegaram, Lílian se deparou com uma bela casa de vidro próxima a um lago. Um lugar muito relaxante, se não fosse o motivo que os levara até lá. Como era uma casa pequena e eles estavam em um grupo de 16 pessoas, os cômodos foram tomados por colchões e malas. Lílian conseguiu um confortável sofá que ficava na sala onde a televisão permaneceu ligada o tempo inteiro sintonizada no Weather Channel.

A casa, o lago e o sofá (Fotos: Lílian Lago)

A casa, o lago e o sofá (Fotos: Lílian Lago)

De volta ao lar (mesmo que não esteja doce)

Na manhã do dia seguinte, todos retornaram para La Porte. Queriam ver com os próprios olhos como ficaram suas casas, lojas e escritórios. Ao chegar, a cidade estava sem água e energia, mas fora isso havia resistido bem à passagem do Rita. A casa em que Lílian estava hospedada sofreu apenas com uma grande quantidade de sujeira no jardim e na piscina. O “quarto de segurança” provou sua eficiência deixando todas as coisas em seu interior sãs e salvas.

Em tempos difíceis, solidariedade é a palavra chave

“Eles são muito solidários com a causa alheia. Eu fiquei espantada!”. Isso foi uma das coisas que mais chamaram a atenção de Lílian. Apesar de La Porte ter conseguido sobreviver ao Rita por estar bem acima do nível do mar, outras cidades ficaram completamente arrasadas. Foi o caso de New Orleans – que fica abaixo do nível do mar – ao ser atingida pelo furacão Katrina: corpos eram achados a todo instante, casas se tornaram apenas entulhos de alvenaria e até mesmo tubarões e jacarés eram encontrados dentro das piscinas! “Era um misto de mar com pântano” afirma a então estudante.

La Porte era uma das cidades que estava recebendo refugiados e arrecadando doações para a distante vizinha litorânea. Nesse momento, Lílian decidiu se voluntariar através de uma igreja presbiteriana e de cara se deparou com montanhas e mais montanhas de doações. “Eu nunca vou me esquecer da pilha de doação de absorvente que eu vi. Eu nunca tinha ouvido falar aqui no Brasil sobre doação de absorvente!”, conta Lílian. O enorme amor que os americanos têm pelo seu lar e a solidariedade com seus conterrâneos foram as coisas que mais marcaram aquela pequena intercambiária até hoje. “Eles sabem que não vão conseguir enfrentar isso todo ano se não ajudarem uns aos outros”, comenta.

O potencial de um furacão é categorizado em uma escala de 1 a 5. Essa escala é baseada na velocidade dos ventos e na elevação do nível do mar.

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