O mito da realeza

Sophia Andreazza

A realeza e os tropeços de um ídolo

        É muito difícil escrever sobre o que não conhecemos. Escrever sobre futebol seria um grande aprendizado para mim, foi o que pensei enquanto escolhia a pauta. Afinal, sair da zona de conforto é bom e divertido. Nem tanto. Sair da zona de conforto requer muita coragem, boa vontade e, por que não, paciência. É tão fácil falar sobre coisas que nos são cotidianas e familiares e tão difícil discorrer sobre as que não gostamos tanto assim. Quando me dispus a escrever sobre Pelé achei que tinha uma tarefa mais ou menos fácil em mãos. Nada disso: percebi, assustada, que não sei nada sobre futebol, e pouco demais sobre o grande craque. Não sei começar um texto sobre o assunto ou levá-lo adiante. Por isso agradeço ao imenso Nelson Rodrigues, que fez essas palavras possíveis. Foi lendo um pouco de suas crônicas apaixonantes e apaixonadas que me vi capaz de rascunhar algumas ideias sobre um esporte que sempre ignorei bastante bem.

Pelé nas eliminatórias da Copa de 70 (Foto: Globo AE)

Pelé nas eliminatórias da Copa de 70 (Foto: Globo AE)

        Em tempos da Copa do Mundo sediada no Brasil, os comerciais do país usam da figura do Rei do Futebol para qualquer coisa: promover o xampu de primeira linha, o desodorante campeão, a marca vencedora etc. Quase todas músicas que queremos assistir no Youtube trazem antes algum tipo de publicidade, e muitas delas mostram o Pelé vestindo a roupa da seleção. Seu rosto sorridente está em todo o lugar.

        No dia treze de janeiro desse ano, o Rei foi homenageado em festa de Gala da Fifa, em Zurique, com a Bola de Ouro. O ex-camisa 10, muito emocionado, foi aplaudido de pé no palco. Durante sua vida ativa como futebolista não recebeu a Bola de Ouro porque o prêmio, criado pela France Football em 1956, visava eleger o melhor jogador da Europa. Pelé nunca jogou em time europeu. Só em 1991 a Fifa adaptou o prêmio para ser entregue ao melhor jogador do mundo. A entrega do prêmio a Pelé, em 2014 foi, como disse o diretor da revista France Football, a reparação de uma antiga injustiça. O presidente da Fifa, Joseph Blatter, exaltou sua carreira e os mais de mil gols no seu currículo.

Pelé em 1972, em jogo lotado no Pacaembu (Foto: Domício Pinheiro/AE)

Pelé em 1972, em jogo lotado no Pacaembu (Foto: Domício Pinheiro/AE)

        Como eu não sei nada sobre futebol, li alguns comentários sobre a premiação do craque em Zurique e fiquei surpresa: nos mais de dois mil comentários, pouquíssimos eram positivos. Alguns poucos pediam respeito pelo futebolista, pois na Argentina, Maradona é idolatrado de olhos vendados e o mesmo deveria acontecer aqui: ignorar a vida pessoal e olhar só para a carreira profissional, para o mito midiático. Outros — menos ainda — diziam que ele é, realmente, o maior jogador do mundo e que mereceu a Bola de Ouro. Eu, pessoalmente, nunca tive problemas em separar a arte do artista. Exemplo: gosto muito de Charles Chaplin. Na minha cabeça, ele é o bondoso Carlitos. Porém, ao ler sua biografia, percebo que se trata de uma pessoa real, cheia de problemas e erros gravíssimos. Essa pessoa não existe nos seus filmes e na minha adoração por eles. Para entender os comentários odiosos sobre o craque, fui ler um pouco sobre ele.

        Edson Arantes do Nascimento nasceu numa cidade chamada Três Corações, no ano de 1940. Alcunhou-se Pelé por algum mal-entendido de criança, de quando seu pai jogava no São Lourenço de Minas. Aos dez anos já jogava num time em Bauru, onde a idade mínima para participar era treze. Quando passou a jogar no Bauru Atlético Clube (BAC) é que foi reconhecido por Waldemar de Britto como um talento e levado para o Santos FC. Sua carreira no time começou em 1956. Foi convidado para jogar na Europa, mas preferiu ficar. Na década de 80, namorou a Xuxa. Ficou dois anos nos Estados Unidos, no New York Cosmos, e bateu uma bola com Bill Clinton. Atuou como Ministro dos Esportes de 1995 a 1998. Até fez uma lei. Em 2000, foi aclamado pela Fifa como melhor jogador do mundo, passando na frente do “hermano” Diego Maradona. Foi depois de Pelé que a camisa dez passou a ser vestida pelo melhor jogador do time. Seu milésimo gol foi no Maracanã. Sua média de gols por jogo está entre 0,93 e 0,94.

Pelé (Foto: Domício Pinheiro/AE)

Pelé (Foto: Domício Pinheiro/AE)

        Agora, a parte obscura: o ex-jogador teve um caso extraconjugal com a dona de casa Anísia Machado, em 1963. O erro colateral do affair foi Sandra Regina Machado. Ela travou uma longa briga judicial com Pelé para que ele a reconhecesse como filha. Isso tomou quase trinta anos. Um teste de DNA realizado em 1996 provou que Sandra era realmente filha de Edson, mas o craque recorreu treze vezes na justiça e nunca quis se aproximar da menina. Ele tinha dúvidas sobre sua paternidade e achava que seria um escândalo reconhecer o fruto de uma relação fora do casamento. Sandra foi vereadora de Santos. Conviveu sempre com um sentimento de rejeição, relatado em seu livro “A filha que o Rei não quis” (Editora Roccia, São Paulo). Ela faleceu em 17 de outubro de 2006, em decorrência de uma metástase de câncer pulmonar. O ídolo do futebol brasileiro não compareceu ao seu enterro, mas mandou flores pela Empresa Pelé, que foram devolvidas.

        Quando soube de sua filha bastarda e renegada, não pude deixar de pensar — novamente o citando — em Nelson Rodrigues e na sua crônica “A Realeza de Pelé”, que fala dum menino de dezessete anos que entra em campo com a cabeça erguida, que não irá sentir-se humilhado perante uma seleção sueca. Do contrário: é ele que vai humilhar os jogadores da Suécia. Não pude deixar de pensar: que realeza há em ignorar uma filha? Que realeza há em duvidar de uma menina que, durante trinta anos, buscou apenas o que todas as meninas buscam: o reconhecimento e o amor paternos?

Pelé e sua filha Kelly Cristina (Foto: AE)

Pelé e sua filha Kelly Cristina (Foto: AE)

        Então pensei no que sempre penso com relação ao Chaplin: será que podemos misturar a persona pública com a privada? Será que é justo fazer isso, quando tantos Joãos e Marias Ninguéns deixam filhos por ai, sem certidão, sem cuidado, sem paternidade? Muita gente faz. Porém, apenas as celebridades, que estão sob a pesada luz dos holofotes, carregam o julgamento de toda uma sociedade. Assisti ao gol mil de Pelé do Youtube. Depois, aos melhores dribles dele. Melhores gols de todos os tempos do Rei. Eu, que assumidamente sou parva em futebol, achei tudo lindo e admirei o quão fantasticamente ele conseguia enganar seus adversários, dribá-los e goleá-los (aprendi que ele faz gols muito bem com a cabeça, o que — me parece — é raro). Da mesma maneira que a sexualidade questionável de Charles Chaplin não lança uma sombra demasiado grande sobre a doçura de Carlitos, as faltas que Edson cometeu em sua vida não ofuscam de todo a realeza de Pelé em campo. Craques — e diretores de cinema e pintores — não são pessoas o tempo todo. Às vezes, ficam do tamanho de mitos.

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