Um número para o futuro

Heloise Montini

Há poucas semanas, li um pequeno conto de Kurt Vonnegut, chamado 2br02b. É uma história sobre um futuro que, aparentemente, nada se assemelha ao nosso presente. O que achei mais curioso nessa história é que quando uma criança nasce é preciso que alguém morra, garantindo ao planeta um número populacional que não aumenta nem diminui.

Simplesmente não consegui parar de pensar nessa história tão pequena. Uma sociedade totalmente controlada, planejada, em que os cidadãos não se dão conta de sua situação, sendo condizente com abusos, e perpetuando uma ideologia que não sabe quando nasceu. A toma para si simplesmente porque os outros fazem. Uma verdadeira espiral do silêncio.

Mas Vonnegut não foi o único a pensar o futuro dessa forma. Desde os clássicos de Orwell, Burgess e Huxley, até o mais atual de Suzanne Collins, retratam um futuro nada utópico. Sociedades em que o Estado garante controle total, do trabalho ao lazer, dos movimentos em público aos privados. Sociedades em que nunca se está só, em que não há segredos, histórias e momentos apenas seus.

Fiquei imaginando por que esses e outros autores resolveram que o futuro seria assim, com pessoas dominadas ou pelo estado ou pela violência – se não ambos. Longe de encontrar uma verdade, me coube apenas imaginar. Não creio que eles tenham retratado um futuro distante. Quero dizer, uma sociedade que está sempre assistindo a reality shows na televisão e que é vigiada constantemente por câmeras de segurança. Não deixa dúvida que Orwell marcou muitos pontos em 1984.

Vi em cada uma dessas obras registros metafóricos da sociedade: discriminar alguém porque nasceu de maneira diferente (Admirável Mundo Novo) é o que vemos atualmente nas noticias sobre os rolezinhos. São preconceitos que sempre existiram, velados ou não. Obras que se disfarçam de ficção, mas que registram magistralmente o ser humano.

É fácil entender como 2br02b também não está fora do contexto quando temos o estado determinando que um casal possa ter apenas um filho, como aconteceu na China. Quanto ao nome, 2br02b, nada mais é do que o número que se digita quando se deseja cometer suicído, de forma assistida, garantindo assim “a mais profunda gratidão é de todas as gerações futuras” *. Pelo menos nisso, a literatura falhou com a realidade. Por enquanto.

* (…) the deepest thanks of all is from future generations”. – 2br02b, Kurt Vonnegut. Tradução livre.

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