Um passo de cada vez

Marina Goulart

Conheça a técnica que pode ajudar na reabilitação de paraplégicos

Naquele final de tarde de sábado, onde os amigos se reuniam em torno do lago, tudo parecia feliz e tranquilo. E assim permaneceria, até João tentar algo diferente dos comuns saltos. Naquela tarde, João queria algo mais, queria mais adrenalina. Porém, o destino quis outra coisa. Ao cair no lago, o jovem fraturou a coluna cervical e viu sua rotina e sua vida mudarem de rumos.

A história é fictícia, mas não deixa de ser realidade em diversas vidas pelo mundo. Em um segundo, a vida pode mudar com um acidente. E são casos como o do João e de tantos outros pelo mundo que movem o estudo do exoesqueleto tecnológico, uma alternativa para a reabilitação de fraturas cervicais.

O exoesqueleto tecnológico é um esqueleto ou parte dele, externo ao corpo do paciente, que auxilia na locomoção ou articulação de membros machucados. Os primeiros indícios de uso de esqueletos externos datam de 2000 a.C, quando foram encontradas talas em corpos mumificados no Egito.

O próximo passo na mesma direção dos estudos atuais ocorreu em 1517, quando foi registrada uma órtese – apoio externo aplicado no corpo – de metal no formato de um braço. Porém, novos estudos se iniciaram com o final da Primeira e Segunda Guerra Mundial. Já que, como consequências da guerra, muitos combatentes morriam por conta da falta de cuidados básicos na reabilitação de lesões na coluna conquistadas no front de batalha.

O estudo da técnica do exoesqueleto ocorre desde a década de 1960 e teve um grande avanço tecnológico graças ao DARPA – Defense Advanced Research Projects Agency – uma agência de defesa norte americana que estuda o uso do esqueleto para fins militares. A Argo Medical Technologies – sediada na Alemanha e em Israel – foi uma das primeiras a desenvolver a tecnologia do exoesqueleto tecnológico para a reabilitação de paraplégicos.

Há duas frentes de estudo para a utilização do exoesqueleto tecnológico, uma está voltada para pacientes paraplégicos e idosos e para pacientes que sofreram AVC – acidente vascular cerebral. Segundo o Doutor Adriano Siqueira, da USP, a primeira modalidade é usada em “pacientes paraplégicos cuja chance de recuperar os movimentos é pequena. Estes dispositivos possuem atuação em todas as articulações e requerem o uso de muletas ou outros equipamentos de suporte”.

Ainda há o estudo voltado para aplicação do exoesqueleto nas forças armadas. Esse uso do exoesqueleto procura o aumento de força e de carregamento de carga por humanos, como explica o doutor Gilson Lima, da Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. “A amplificação humana em estado de normalidade que é utilizada – quase sempre – para finalidades militares como o aumento da capacidade de força, carga e de enfrentar os limites da mobilidade humana de nosso corpo biológico”.

Apesar de todos os estudos para a aplicação do exoesqueleto tecnológico em humanos, a escala de emprego da inovação ainda é muito reduzida. Pesquisas realizadas pela empresa japonesa Honda inserem os esqueletos em mais uma categoria: em acessibilidade para os idosos. Como explica o Doutor Gilson Lima, “no Japão pesquisas de exoesqueleto da Honda estão cada vez mais focadas nos idosos. Não devemos esquecer que caminhamos para ter, na primeira vez na história da humanidade, uma civilização majoritária de vovôs e vovós que sofrerão dos limites de nossa natureza corporal biológica”.

Exoesqueleto produzido pela Honda (Foto: Honda)

Exoesqueleto produzido pela Honda (Foto: Honda)

 O doutor Gilson Lima ainda afirma que “existe uma imensa família de possibilidades de usos de exoesqueleto para finalidades de qualidade de vida e acessibilidade”. Esses dispositivos podem ser responsáveis por um aumento na qualidade de vida de pessoas paraplégicas.

No Brasil os estudos sobre o exoesqueleto ainda são poucos e esparsos, mas alguns se destacam pela sua importância e apoio. Como explica o Doutor Gilson Lima “há um projeto muito apoiado e em andamento no Brasil, coordenado pelo Dr. Miguel Nicolelis. Trata-se de um projeto para tetraplégicos que consiste na produção de um exoesqueleto comandado diretamente pelo ‘cérebro’,  para a Copa do Mundo em 2014”.

Protótipo do projeto coordenado por Miguel Nicolelis (Foto: Projeto Andar de Novo)

Protótipo do projeto coordenado por Miguel Nicolelis (Foto: Projeto Andar de Novo)

Esse exoesqueleto seria ligado ao cérebro do paciente que comandaria o esqueleto como se fossem membros do seu corpo. O jovem ainda não foi escolhido e a AACD – Associação de Assistência à Criança Carente está envolvida no projeto.

O projeto Andar de Novo é uma parceria entre mais de 100 cientistas e entre as instituições de Lausanne, na Suíça, a Universidade de Duke nos Estados Unidos, além de universidades em Berlim e Munique. O projeto no Brasil está sendo desenvolvido em São Paulo e Natal.

O exoesqueleto apresenta uma chance e uma oportunidade de pessoas paraplégicas retomarem um pouco da acessibilidade e da locomoção que foram retiradas delas. Como finaliza o Doutor Adriano Siqueira, “o que motiva nossas pesquisas nesta área é a possibilidade de aplicar nossos conhecimentos em sistemas robóticos para o desenvolvimento de dispositivos que vão aumentar, mesmo que de maneira limitada, a qualidade de vida de pessoas com deficiência”.

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