Uma entrevista com Melissa Vettore, atriz que interpreta Camille, na peça Camille & Rodin

Em dezembro de 2012, entrei em contato com a atriz Melissa Vettore. A peça Camille & Rodin tinha estreado em junho daquele ano, no MASP, e embora o texto fosse do  dramaturgo Franz Keppler, a ideia tinha partido da atriz, admiradora da obra de Camille Claudel (1864 -1943). Em pouco menos de um mês depois da primeira tentativa de contato, ela me respondeu que adoraria conversar comigo, e me deu convites de cortesia, para o dia 10 de fevereiro de 2013. Meu aniversário. Ou nosso aniversário.

Sim, eu e Melissa fazemos aniversário no mesmo dia. Mas só fui descobrir isso ao final da peça, quando o ator Leopoldo Pacheco (que interpreta Rodin), pediu à plateia que cantasse parabéns para a colega de cena. E no meio de duas grandes coincidências (a admiração pela mesma artista e a mesma data de aniversário), conversei com Melissa, 42 anos, mas com uma vivacidade quase adolescente.

Depois daquele encontro, passei várias semanas procurando outras pessoas que pudessem falar sobre Claudel. Em vão. Mas por que será?

Irmã mais velha do poeta Paul Claudel (1868-1955), Camille era uma pessoa rebelde, impulsiva e com grande desejo de independência, o que gerava conflitos constantes com sua mãe, que não aprovava sua carreira artística. Mas incentivada pelo pai, Camille foi a Paris aos 19 anos aperfeiçoar seu talento para a escultura, e lá conheceu Auguste Rodin,  que já era um artista renomado, e de quem Claudel se tornaria aprendiz. Da relação profissional surgiu a amorosa, que durou quase vinte anos, até que Rodin decidiu romper o relacionamento, deixando Camille desolada. Em 1913 sua família a internou no hospício, de onde ela não sairia mais, embora apresentasse um claro quadro de lucidez.

Em cena, Melissa dá vida a uma Camille intensa em tudo o que faz (Foto: Reprodução)

Em cena, Melissa dá vida a uma Camille intensa em tudo o que faz (Foto: Reprodução)

Além de amantes, Camille & Rodin apresentavam vários pontos em comum em suas obras. Muitas que foram consideradas de autoria do escultor, inclusive, teriam tido ajuda da amante, que embora tenha conquistado certo renome após uma exposição individual, já separada de Rodin, nunca teve em vida o reconhecimento que poderia tê-la livrado do seu confinamento.

2014 é o 150° aniversário do nascimento da artista. É o ano em que ela merece ser redescoberta, seja por meio de suas esculturas, seja por sua própria história, por representar uma mulher que estava à frente do seu tempo e pagou por isso. Opções para  conhecê-la não faltam.

Além da  peça, os filmes Camille Claudel( 1988  ) e Camille, 1915(2013) também tentam contar a sua história, mas os três possuem uma abordagem distinta. No primeiro filme, Isabelle Adjani interpreta Camille durante sua relação amorosa com Rodin, enquanto no outro filme Juliette Binoche interpreta a artista já no hospício, e o enredo é um mote para um debate cinematográfico entre loucura (representada pelos loucos que convivem com Claudel e até por ela mesma, embora não esteja totalmente fora de si) e religião (representada por Paul Claudel), e a partir disso até podemos compreender porque a ela nunca foi permitido voltar à sociedade.

O Abandono ou Sakountala é uma das obras mais conhecidas de Camille (Foto: Divulgação)

O Abandono ou Sakountala é uma das obras mais conhecidas de Camille (Foto: Divulgação)

Mas qual foi a releitura da peça, atualmente em turnê por várias do país? Depois de poucas perguntas,  Melissa Vettore conseguiu mostrar porque Camille merece ser redescoberta:

Já há um filme de 19  sobre Camille Claudel.  Qual foi a abordagem utilizada para contar a história de Camille nos palcos?

Se o filme tem um teor mais de biografia, na peça procuramos mostrar a relação do casal e contar a história sob o ponto de vista da Camille, diferente do filme que é mais imparcial.  Aqui tínhamos cartas escritas por ela para o irmão, suas próprias obras, para usar como referência e mostrar como as emoções e a personalidade de Camille se relacionavam com a persona de Rodin.

 Tanto as obras de Camille como as obras de Rodin foram consideradas transgressoras, mas hoje, em que há o pós-modernismo e certo distanciamento das emoções, como é possível abordar para o público contemporâneo a ruptura que haveria nas obras deles, sabendo que elas ainda estão fortemente marcadas por certo romantismo?

O Rodin possuía uma obra de transição entre o romantismo e as novas formas de expressão de arte que surgiriam depois dele, então há uma quebra com as suas obras que impressionam até hoje por isso, por causa dessa indefinição de estilos já conhecidos que formaram um estilo novo e único que era o dele.  Para a peça,  foi interessante mostrar esse conflito: como Rodin muitas vezes não era compreendido, um problema pelo qual passaria Camille e ainda pior, já que ela era mulher. Mas se hoje o público convive com uma arte que está mais distante das relações e que seja mais estética, as curvas presentes nas esculturas de Rodin e de Camille encantam até hoje pela sutileza usada para passar grandes emoções.

E como vocês tentaram aproximar mais o que eram Camille & Rodin como pessoas do casal como artistas?

Como já disse, usamos de alguns documentos pessoais para compor os personagens, como cartas, diários. Mas na peça usamos um recurso interessante: tentamos, após algum momento que passava determinado episódio afetivo dos dois (como uma briga), reproduzir em gestos algumas das esculturas de Camille, como O Abandono e A Dança. Foram momentos que mostraram como Claudel conseguia passar nas suas esculturas toda a sua personalidade intensa e ao mesmo tempo mutável, a ponto de todas os dias de ensaio e espetáculo serem de uma nova reconstrução para ela, e este desafio vai durar até o final do nosso trabalho.

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