A tevê em nossa era. Ou: deus num trailer assina Netflix

Michael Barbosa

Com um cinema carente de novas histórias, as séries crescem em popularidade e qualidade

Esse artigo é sobre as séries de tevê dos Estados Unidos. Mais do que isso: é sobre a hipótese de que nunca antes a televisão americana foi tão boa e de que hoje os melhores produtos do mainstream do audiovisual estadunidense estão saindo dos estúdios de canais como a AMC, a HBO e a Netflix – não de Hollywood e seus filmes.

A televisão mudou

Não aconteceu do nada, não foi um zeitgeist criativo entre criadores, produtores e roteiristas. Pelo contrário, muita coisa mudou na televisão no século XXI e algumas delas foram cruciais para permitir esse momento de celebração por parte de público e crítica.

Podemos começar pelos atores. Não muito tempo atrás a televisão era obrigada a apostar sempre em atores de pouco nome; prima pobre do cinema (mais no glamour do que efetivamente no dinheiro), apostava em atores desconhecidos ou renegados, mesmo para shows que detinham grande expectativa. Arquivo X, da Fox, possivelmente uma das maiores séries dos anos 1990, tinha como protagonistas os atores Gillian Anderson e David Duchovny. Anderson tinha participado de um longa metragem de baixo orçamento e dois curta-metragens antes de se tornar mundialmente conhecida como a agente do FBI Dana Scully. Duchovny tinha um currículo um pouco mais extenso, mas era ridicularizado pela crítica nos primórdios da série e comparado a um robô; antes de X-Files ele não era, realmente, um cara digno de nota.

Hoje parece difícil que um canal do tamanho da Fox escolhesse dois anônimos para protagonizar um show de horário nobre? Realmente. A Netflix, canal sui generis, escolheu Kevin Spacey para o papel principal de sua primeira série original, House of Cards. Kate Winslet (sim, ela!) teve como principal trabalho de 2011 a mini-série Mildred Pierce. Steve Buscemi dedicou seus últimos três anos à premiada Boardwalk Empire. Jeff Daniels, de Newsroom, está longe de ser um desconhecido… E por ai vai. A tevê, que há tempos já tinha a grana, tem agora status e prestígio. Não é mais lugar para iniciantes e refugos. E que fique claro: falo disso mais pelo significado simbólico do que pelo ganho técnico com os medalhões do cinema.

A estrutura organizacional da série também se enraizou no imaginário coletivo, e esse é um passo importante. Desde da Cahiers du Cinéma e daquela campanha toda de Godard, Truffaut e companhia se construiu a ideia de que o artista (dono) do filme é o seu diretor, e essa noção é valiosa para entender o filme como obra de arte – tal qual a poesia é do poeta e a pintura do pintor. Essa noção, porém, passava à margem da televisão. Com o show difuso num trabalho de vários produtores, um tanto de roteiristas e a possibilidade de diferentes diretores numa mesma temporada, ficava difícil jogar em um sujeito a imagem do artista – e a crítica de arte é bastante personalista. Mas eis que surge o showrunner; o “corredor do show” é, na prática, aquele que acumula funções de produtor executivo, editor chefe dos textos e, ocasionalmente, também roteirista, podendo ser ou não o criador da série. É o homem forte por trás do espetáculo, o artista maior. É Vince Gilligan de Breaking Bad ou Steven Moffat da inglesa Doctor Who.

O seu próximo canal favorito

Se você não tem Netflix, seu amigo tem, ou sua namorada(o), ou seu irmão. O serviço de tevê por assinatura via internet, disponível no Brasil desde 2011, conquistou os corações da sociedade contemporânea com aplicativos para televisores, videogames, tablets e smartphones – multiplataforma, ágil e (pós)moderna. Criada num inimaginável 1997, a Netflix espantou o fantasma da pirataria e mostrou que era possível cobrar por um serviço de filmes e séries em plena internet – o que poderia passar por piada meia década atrás para os mais apocalípticos analistas.

Em 2013 a Netflix estreou suas primeiras séries originais, num esquema revolucionário para um canal de tevê. Comenta-se que a empresa após aprovados os projetos de séries como House of Cards, Hemlock Grove e Orange is the New Black, assinou o cheque e deu carta branca para produtores e roteiristas produzirem uma temporada completa das séries, sem acompanhamento constante. Orange is the Black é sobre um menina de classe média que acaba na cadeia anos após um envolvimento com tráfico; é uma comédia de humor negro com problemas de desenvolvimento, mas que sustenta muito bem seus episódios de uma hora, numa dessas dramédias da tevê americana – à lá Weeds, que é da mesma criadora. Hemlock Grove, um terror teen, parece uma mistura de Stephen King com Stephenie Meyer e apesar do gore impressionante e do dedo de Eli Roth, não impressiona. House of Cards – a que tem o Kevin Spacey – contou com direção de David Fincher (Clube da Luta, Zodíaco, A Rede Social) e concorreu a um Globo de Ouro de melhor série já nesse ano, a primeira indicação da Netflix como um canal de televisão (quase) como outro qualquer.

Mas entre os primeiros erros e acertos – como, por exemplo, liberar todos os episódios da temporada de suas séries de uma só vez -, o que a Netflix fez de mais interessante foi sua série semi-original: Arrested Development. A sitcom sobre uma família que perdeu tudo e do filho que teve que mantê-los juntos foi ao ar no canal Fox entre 2003 e 2006; elogiada pela crítica, mas com audiência decepcionante, a Fox cancelou o show, que tinha como showrunner e narrador Ron Howard (diretor de filmes como O Código Da Vinci e Uma Mente Brilhante). Melhor que qualquer filme de Howard, Arrested é uma série em formato de documentário/programa de tevê forjado, com uma constante narração em off, ‘imagens de arquivo’, flashbacks e flashforwards, numa temporalidade flutuante e caótica, além, claro, de um texto inspiradíssimo, com um humor transitando entre as gags e os diálogos, com uso impressionante das nuances da íngua inglesa e de trocadilhos, além de uma série de piadas internas que são constantemente retomadas.

Arrested era possivelmente o que existia de mais original e ousado na televisão nos idos de 2003. Cancelada, passou sete anos criando uma legião de fãs saudosistas e se tornou hit na Netflix. A jogada de gênio se deu em 2011, a Netflix apostou na série que estava morta, então, há cinco anos, e comprou os direitos da Fox, lançando em 2013 uma nova temporada. Ou seja, a Netflix enxergou num produto abandonado pela televisão por falta de audiência uma possibilidade de negócio – e acertou. A quarta temporada de Arrested não parece melhor que as três anteriores e teve dificuldades na produção – nenhum episódio teve todos os personagens contracenando -, mas mantém boa parte do espírito original e ainda parece mais inteligente que qualquer outra coisa por ai. É um tipo de experiência que se pode chamar de inédita. Netflix é onde a tevê flerta com seu futuro inevitável.

Terapeuta e analista, Tobias Funke, analrapist no humor incorreto e neologista de Arrested Development (Foto:  Fox)

Terapeuta e analista, Tobias Funke, analrapist no humor incorreto e neologista de Arrested Development (Foto: Fox)

AMC e seu trio dourado

29 de setembro de 2013, é exibido no canal fechado AMC o fim da saga do químico pai de família que começa a produzir metanfetamina após descobrir que está com câncer no pulmão e mergulha no mundo do tráfico, na maior história sobre degeneração moral e família desde Michael e os Corleones em O Poderoso Chefão. O episódio final de Breaking Bad – episódio de série mais comentado desde que findou-se Lost – consagrava a AMC, um canal que até uma década atrás dedicava a maior parte de sua programação a filmes antigos.

Breaking Bad, que acabou como uma superprodução celebrada, estreou com timidez e nenhum barulho – era apenas a segunda série a estrear no canal. Se mostrou um épico moderno e adulto sobre a capacidade de um homem se transformar, num show capaz de nos entregar planos longos do deserto, cortes abruptos com lindos fade outs em preto; na história que se constroi inúmeras vezes mais no anti-clímax do que no clímax em si, num processo irredutível de ver Walt se tornar uma pessoa cada vez pior e nos colocando no dilema moral de apoiar ou não nosso (anti)herói.

As outras duas séries da AMC de destaque são Mad Men e The Walking Dead. A primeira é, acredito, a série mais celebrada pela crítica americana na última década, ganhadora de quatro globos de ouro e quinze emmys. A segunda, por sua vez, um dos maiores sucessos comerciais, incrivelmente rentável, ainda que não me agrade.

A AMC, com produções próprias e de produtoras independentes, mostrou um faro quase inacreditável; e que a televisão pode ser mais livre longe das famigerdas redes abertas, como as gigantes ABC, NBC e CBS.

Breaking Bad mostra que a AMC pode ser enorme (Foto: AMC/Rede Record)

Breaking Bad mostra que a AMC pode ser enorme (Foto: AMC/Rede Record)

 

Sexo, Sangue e HBO

Por útlimo, vale destacar a HBO. Roma, de 2005, já dava sinais que a gigante rede de tevê paga estava prestes a ultrapassar limites no sangue e no sexo. A confirmação veio ao longo de várias séries e teve sua confirmação de sucesso com True Blood e Game of Thrones – vou falar dos vampiros porque não vi a segunda. True Blood, ao pegar a onda do sucesso de Crepúsculo e trazer de volta para o mundo adulto, radicalizou essa proposta, fez um show quase pornográfico e que a violência parecia saída de Mortal Kombat. Depois do começo promissor, True Blood desandou e só perdeu em qualidade, mas deixou mais consolidada a estética do canal com uma visceralidade notável, um potencial de público estrondoso e algumas boas ideias.

Enfim

Outras tantas séries fantásticas estão sendo feitas por outros tantos canais da televisão americana, e os grandes nomes ainda produzem coisas fantásticas. Não se trata, nem por isso, de desprezar o começo dos anos 2000 e as décadas anteriores. Séries como The Wire, Arquivo X e The Sopranos não devem em nada às elogiadas nesse artigo, a exaltação ao atual momento se deve mais ao quão prolífica a tevê americana se mostra hoje, com um leque de programas que passam por inúmeros formatos e valoriza cada vez mais obras que se afastam dos enlatados e flertam com a vanguarda do veículo. Lá pelos lados de Hollywood, Carrie, de Stephen King, foi filmado pela terceira vez. O romance é de 1974.

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