Luz, câmera, arte!

Camila Pasin

Reabertura do Cine Belas Artes, em São Paulo, desperta esperança sobre a perdida manifestação cultural e intelectual do cinema brasileiro

(Foto: Divulgação)

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Que tal ir no cinema e voltar pra casa com sua bagagem cultural abastecida, onde os tiros, sangue, sexo e drogas hollywoodianos não são os protagonistas do filme? Então prepare sua pipoca que o famoso Cine Belas Artes, localizado na esquina da Avenida Paulista com a Rua Consolação, está em cena novamente! O cinema, que havia fechado suas portas em 2011, irá reabrir por meio da parceria entre a Prefeitura de São Paulo e a Caixa Econômica Federal. O novo nome será Cine Caixa Belas Artes.

Para a felicidade dos cinéfilos que frequentavam o Belas Artes, a programação permanecerá com a mesma essência de anos atrás, deixando de lado aqueles filmes comerciais que tanto estão em alta atualmente, e apostando em obras mais artísticas, com filmes independentes e documentários. Além disso, para tornar a cultura mais acessível, a promessa é de que o valor dos ingressos seja 20% mais barato em comparação a outros cinemas da Av. Paulista.

Desde o fechamento do espaço, há três anos, um grupo de pessoas mobilizou-se com o intuito de reativar o cinema, que teve sua inauguração em 1943. O Movimento Cines Belas Artes (MBA) manteve um diálogo com os órgãos de preservação Judiciário e Legislativo e impediu que o prédio se transformasse em um estabelecimento comercial.

Manifestação contra o fechamento do Cine Belas Artes, realizada na Paulista em 2011 (Foto: Anderson Barbosa/AE)

Manifestação contra o fechamento do Cine Belas Artes, realizada na Paulista em 2011 (Foto: Anderson Barbosa/AE)

“Eu me lembro que sempre passava na frente do Cine Belas Artes e via ótimas opções de filme em cartaz, mas nem sempre conseguia tempo de parar e assistir. Lembro que tinha sessões durante toda noite em um dia da semana e, pela manhã, café”, conta Maria Isabel Calvo, que morou na cidade de São Paulo durante a década de 80 e, quando possível, comparecia ao Belas Artes para assistir a um bom filme. Essas sessões que rolavam pela madrugada, como contou Maria Isabel, faziam parte do “noitão”, onde as pessoas interagiam entre si e assistiam a filmes surpresa. Depois, ainda tomavam café-da-manhã no próprio local. Além disso, cada sala tinha o nome de um artista, como Carmen Miranda, Cândido Portinari, Oscar Niemeyer, Aleijadinho, Villa Lobos e Mário de Andrade.

Agora, pare para imaginar essa rotina nos cinemas que costumamos frequentar, dentro de shoppings e rodeados por lojas… Difícil, né?! A maneira que encaramos o cinema atualmente e, além disso, a própria produção cinematográfica sofreram profunda alteração por conta da mudança de espaço do cinema. Ao estar inserido no universo de consumo, o cinema acaba por se tornando mais um mero produto cuja meta é o lucro e entretenimento das massas. Com formatos cada vez mais apelativos e conteúdos banais, os filmes em cartaz nas empresas exibidoras de cinema – destaque ao cunho empreendedor do termo – não valorizam a expressão artística e intelectual, mas procuram reforçar o interesse e a influência do público massivo no modelo hollywoodiano de produção. “No shopping são privilegiados filmes mais comerciais, em sua maioria para o público infantil, ou filmes de ação. Produções excelentes, muitas vezes, não são exibidas nos cinemas do shopping”, comenta Maria Isabel.

(Foto: Divulgação)

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Além disso, há a questão do custo que restringe o público a ter acesso às salas de cinema em shoppings. Com preços absurdos – e não falo somente do convite, mas dos indispensáveis comes e bebes vendidos na área próximas às salas – são poucos aqueles que podem ser considerados realmente frequentadores de cinema. E, para os que podem, termina por aí: na pipoca e poltrona. Não há qualquer tipo de interação social ou manifestação cultural. E quando há uma “iniciativa” para promover a relação social nesse espaço, surge a promoção de “beijos de quinta feira na frente da bilheteria para ganhar desconto”. Dispensa comentários.

Porém, não podemos radicalizar e desmerecer por completo esse tipo de entretenimento e de produção cinematográfica, até porque a pauta deste texto não é essa. Mas a questão cabe ao tratarmos da mudança que sofremos com o fim dos cinemas de rua, e a tão almejada esperança com a reabertura do tradicional Cine Belas Artes. Cinema este que já se mostrou, na época da ditadura militar brasileira, como um dos principais locais de resistência em meio à opressão, trazendo ideias estrangeiras – não só norte-americanas, vale ressaltar – que fomentavam a luta da juventude.

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