Sobre agulhas

Sophia Andreazza

    Foi numa aula de teatro há bastante tempo atrás. O professor nos deixou muito bravos. Queríamos ensaiar, declamar, brigar pelos papéis mais legais, sei lá. A aula durava várias horas, tínhamos de pegar um ônibus pra chegar lá e outro pra sair. Ninguém estava a fim de procurar nada. Mas ele disse: pessoal, o exercício hoje é procurar uma agulha de crochê ali no quartinho da bagunça. Ainda consigo ouvir o pessoal — eu inclusa — resmungando. Ainda consigo ver um sorrisinho no canto da boca do professor. A palavra dele era ordem, então obedecemos. Eu estava chateada, cansada e sem nenhuma paciência pra achar agulha na zona que era o famigerado quartinho da bagunça. Ficamos uns dez minutos parecendo tontos, jogando fantasias e tule e sapatos sem par e coisas que se perdem para o alto. Nada de agulha de crochê; nós querendo encontrar aquilo pra terminar logo com a atividade, comer um salgado ruim na cantina, sei lá. Então o professor pediu que parássemos e dividiu a turma em dois grupos. Um tinha de continuar a busca, o outro ia só assistir. A coisa começou a ficar legal: fui uma das que sentou. Ver meus amigos, desesperadíssimos, revirando pó e bagunça por causa de uma agulha me divertiu, confesso. Algum tempo depois, ainda sem o objeto procurado, o professor mandou parar mais um vez e revelou: “não tem agulha nenhuma, gente. Não tem. Agora vocês que estavam procurando, continuem a procurar. Sim, é isso mesmo que tem pra fazer. Juro”. A busca recomeçou, mas dessa vez estava tudo diferente. Como procurar por algo que não existe?

    Naquele dia, meu professor me deu a melhor lição que eu poderia imaginar para explicar o teatro; um bando de gente procurando uma coisa que não existe e outro bando sentado, só vendo. Todos sabem que é uma mentira, um jogo. Mesmo assim, após anos e anos e anos de existência, as plateias do mundo continuam cheias e os palcos também. A mentira teatral é um contrato, aceito pelas partes envolvidas como uma fuga necessária da realidade. Naquele dia, foi isso que aprendi. Mas lições desse tipo tendem a se transformar em metáforas nas nossas cabeças. A metáfora: e não é muita coisa na vida uma mentira maquiada e aceita? Quantas vezes não nos vemos em situações assim — começamos pensando que é verdade, que a agulha está ali, que se procurarmos mais um pouco ela há de aparecer. Por que existe, é de verdade. Precisa ser. Alguém disse que a agulha está ali, então tem de estar. Depois, nos damos conta de que não é bem assim… Nem todas as agulhas são reais. Nos olhamos nos olhos e percebemos que qualquer esperança de agulha ficou pra trás, mas fingimos que não. A busca, inútil e dolorosa, segue. Num aperto de mãos, beijo e abraço, assinamos o contrato, como que dizendo a realidade não basta, vamos fingir mais um pouco e ver no que dá. Vai que.

O beijo, Gustav Klimt

O beijo, Gustav Klimt

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s