Chinaski, Joe & Duke

Michael Barbosa

 “find what you love and let it kill you”

 Alguns caras, bastante privilegiados, simplesmente sacam as coisas. Simples assim. São alguns poucos sujeitos capazes de olhar pra essa grande engrenagem da vida e sacar o movimento, entender o que está acontecendo, como está acontecendo e porque está acontecendo. Bem, a maioria de nós sequer olhamos pra porra da engrenagem – passamos batido –; e a minoria que se dá ao trabalho de olhar é incapaz (ou não chega a se esforçar o bastante) de realmente sacar a coisa toda: coisas e pessoas. Mas, felizmente, alguns filhos da puta têm O Dom; esses caras são sujeitos enviados por deus (sic) pra estar ali, naquele momento e espaço, e dar uma esclarecida pra nós, meros mortais, que não sacamos nada, no que está acontecendo – e é isso que faz deles sujeitos realmente GRANDES. Entendam: pouquíssimos caras sacaram a engrenagem, menos caras ainda foram bondosos e caridosos ao ponto de explicarem com gestos, palavras, atitudes, notas… Arte, porra, o que que estava rolando.

Buk era um desses indivíduos; ele entendia que não estava tudo bem depois da Segunda Grande Guerra. Eis ali um cara que sabia que o mundo depois de Hitler e campos de concentração e Churchill e Roosevelt e, enfim, A Bomba, era um mundo cinza – não aquele azul e rosa forjado pelo estado de bem-estar social, o AWOL triunfante e essa merda toda. Buk entendia que O Sonho já estava morto àquela altura e que ironizar A América e seus ideais e valores morais era uma dessas coisas que realmente se vale a pena fazer, e que não poderia haver jeito melhor de fazer isso do que não dando a mínima; um cara que sabia cagar e andar pros grandes objetivos – e, puta que pariu, como isso é louvável. Infelizmente, pra galera daqueles tempos, ninguém percebeu à época, e quando começaram a se dar conta já era umas tantas décadas depois e Buk já era O Velho Buk.

Jimi (H.) foi esse sujeito naquela tão linda segunda metade dos sessenta, aquele verão de meia-sete, hippies, a lisergia toda, Woodstock, o ácido, a neblina púrpura… A liberdade e o exagero como fuga à grande piscina de bosta movediça que estava nos sugando! Ele sabia que o único caminho era o exagero e ninguém antes ou depois deu fim numa guitarra como aquele anjo negro de Seattle – e estava ali todo o sentimento de uma geração, um cara que entendia de símbolos e idiossincrasia. Jimi sacou tão bem aquilo tudo que sacou inclusive que precisava morrer – e estava ali seu ato de grandeza derradeiro e definitivo. No lugar de Jimi poderia estar aqui escrito Paul, Lou, Bob ou talvez Keith?, poderia, mas… Eles viveram demais. Alguém que sacou os sessenta não poderia, em hipótese alguma, viver alguma coisa além dos sessenta; era preciso, e indispensável, morrer ao apagar das luzes dos sessenta. Jimi fez isso, sacou isso, se entregou ao sono da eternidade no ano de um nove sete zero, como tinha de ser. Ele compreendeu o último suspiro de esperança que o Ocidente teve. O último momento de alguma beleza sincera dum todo.

Por fim, (H.) Thompson, o cara que sacou que A América vivia A Ressaca. O primeiro cara a perceber que os sessenta tinham acabado e que o jovem anos setenta não poderia suportar nem mais um minuto de Paz & Amor & As Drogas como uma questão “política-filosófica-espiritual”, ou equivalente; Thompson foi o cara que entendeu o que realmente significava os Beatles terem acabado e Jimi (do parágrafo de cima) estar morto, o medo e o delírio. O primeiro homem da América a acordar nos setenta – redesiludido. O Sonho Americano porra nenhuma, ele sempre soube que não tinha sonho algum e que essa ladainha hippie não ia dar em nada, só estava afim de se drogar no caminho porque era o que restava àquela altura.

Depois disso eu não sei ou não lembro, deve ter tido alguém, sempre tem alguém – há de ter alguém, no fim das contas, capaz de sacar as coisas. Talvez, se não for assim, com um observador criativo, um filho da puta muito esperto, a engrenagem para.

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