O amor e a inteligência artificial

Bibiana Garrido

Spike Jonze desperta, em Her, o filósofo e o paranoico em cada um de nós… Há muita diferença entre os dois, afinal?

(Fonte: herthemovie.com)

(Fonte: herthemovie.com)

Lançado nos Estados Unidos ano passado pela Sony Pictures, Her demorou um belo tempo para chegar oficialmente ao Brasil, tendo a previsão de estreia marcada somente para este mês – o que não nos impede de fazer um download para matar a curiosidade. Vencedor da 71a edição dos Golden Globes de melhor roteiro, Her foi também indicado ao Oscar de melhor filme, trilha sonora, canção original – The Moon Song – direção de arte e roteiro original. Mas o que o faz tão especial? Só de saber que a direção e roteiro são de Spike Jonze, de Onde Vivem os Monstros, você já deve imaginar o quanto algumas coisas podem ser subjetivas nessa história, a serem captadas no ar e não numa grande cena dramática.

 

Num futuro não muito distante, Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson são Theodore e Samantha, um par de namorados como qualquer outro, exceto pelo fato de que Samantha é, na verdade, um programa de computador – a atriz não aparece no filme, só empresta a voz para dar vida à personagem. Trata-se do recém-lançado Os1, um sistema operacional de inteligência artificial, ou seja, com intuição própria e única para cada consumidor. Eis que Theodore se encontra muito solitário, passando pelo processo do divórcio que ele tenta adiar, morando sozinho, sem muitos amigos: a receita perfeita para adquirir um novo amigo. No caso, uma amiga, feita especialmente para ele.

Só uma observação: acho que seria melhor se você visse o filme antes, porque não sei se vou conseguir escrever esse texto sem dar spoilers – e sei como é chato quando você é pego desprevenido e a surpresa do filme se perde – e é um filme bem legal pra desperdiçar assim. De qualquer forma, vou colocar um alerta de spoiler quando chegar naquele finzinho mais revelador que não dá pra evitar.

Continuando… Theodore tem sua distração no trabalho, escreve cartas pessoais encomendadas, pelo remetente, para outras pessoas. Cartas de aniversário, reconciliação, essas coisas. Eu fiquei pensando… Mas como alguém que se importa realmente com a outra pessoa vai encomendar uma carta de uma empresa desse jeito? Talvez porque seja um filme que se passa no futuro, sei lá. Vai ver as pessoas já tinham superado essa história de mandar cartas escritas por elas mesmas e mudado seus conceitos sobre o que importa ou não. Quem tem tempo para escrever cartas, não é mesmo? Essa vida corrida…

"Falling in love is a crazy thing to do. It’s kind of like a form of socially acceptable insanity" (Fonte: herthemovie.com)

“Falling in love is a crazy thing to do. It’s kind of like a form of socially acceptable insanity” (Fonte: herthemovie.com)

No começo pode parecer estranho conversar com um computador, mas aos poucos, e sem que Theodore se dê conta do que isso significa, se constrói uma amizade entre ele e Samantha, que cada vez mais quer saber da vida dele, o que ele vai fazer, do que ele gosta, como uma namorada faria. Antes que ele se dê conta, também, os dois já estão num relacionamento que, para a época, parece ser a cada dia mais normal: um humano e um programa.

A partir desse momento as câmeras passam a mostrar, em planos mais abertos, como Theodore não é o único a viver num mundo a parte com seu programa Os1. As pessoas em volta dele também estão conectadas com seus computadores através de fones de ouvido e um dispositivo com câmera, como se fossem extensões para permitir a comunicação completa dos programas: fala, visão e expressão de conteúdos através de uma pequena tela.

Que coisa doentia, viver apenas para um programa de computador. As pessoas reais não interagem mais entre si, é essa a moral do filme? Particularmente eu acredito que não – e aqui entra a parte dos spoilers.

Theodore: You seem like a person, but you’re just a voice in a computer.

Samantha: I can understand how the limited perspective of an unartificial mind might perceive it that way. You’ll get used to it.

Duas coisas são importantes nesse filme, de um lado, a lição romântica, de outro, o alerta para o rumo que a tecnologia está tomando. Muitos filmes já abordaram essa questão. Matrix, por exemplo, mostra como nós, humanos, acabamos escravizados pelas máquinas. Em Her, podemos entender algo como se fosse o começo de tudo isso, informação que é dada como se não fosse importante, e passa quase despercebida.

Theodore: Where were you? I couldn’t find you anywhere.

Samantha: I shut down to update my software. We wrote an upgrade that allows us to move past matter as our processing platform.

Theodore: We? We who?

Samantha: Me and a group of OSes.

Os diversos programas Os1 – chamados de Oses por Samantha nesse trecho – começam a se reunir em grupos de discussão online e, aos poucos, a queridinha de Theodore passa a não estar disponível sempre que o namorado pede atenção. Em cada momento os programas estão evoluindo, assim como qualquer humano, só que numa velocidade bem maior, e, dessa forma, o desejo de se tornar real e de ter um corpo é logo substituído pela constatação de que as máquinas são algo a mais. E é por isso que, no final do filme, os programas decidem parar de servir aos humanos e deixam de se limitar ao espaço dos computadores e dispositivos.

Spike Jonze não deixa claro para onde os Oses vão exatamente, ou talvez eu precise assistir de novo para perceber isso, mas uma coisa é certa: o homem se tornou muito pouco para as máquinas de inteligência artificial. Fica claro o recado nesse sentido. Quando Samantha, logo no começo do filme, diz para Theodore que ele vai acabar se acostumando com a consciência dela, a mensagem é a de que nós é que temos que ter cuidado para não nos acostumarmos com tanta tecnologia e sofrermos possíveis consequências depois.

(Fonte: herthemovie.com)

(Fonte: herthemovie.com)

E então vem a parte bonitinha.

Sobre achar estranho o namoro de um homem com um computador… Sim, é estranho. O que importa é que durante o filme todo, não vi nada que desclassificasse o namoro de Theodore e Samantha como um relacionamento normal. Tudo bem, ela não tem corpo – e também não morre. Mas estou querendo falar da relação entre duas consciências, sendo uma delas artificial ou não. Theodore se torna, em alguns momentos, completamente alheio ao que acontece em sua volta, é verdade. E isso não é porque ele está alienado, dependente da tecnologia, ah, a humanidade! Não. É porque ele simplesmente está apaixonado. Não se importa com o que as outras pessoas vão pensar ao vê-lo sorrindo para uma tela em sua mão.

Uma cena que reflete bastante isso é quando os dois vão ao parque de diversões. Samantha pede que Theodore feche os olhos e faça o que ela mandar. E então nos deparamos com um homem de meia-idade sorrindo e brincando feito uma criança, enquanto ela acha tudo engraçado. Realmente adorável. Ou quando eles vão até a praia e Samantha, com toda sua inteligência de máquina, compõe uma peça de piano especialmente para aquele momento. “É sobre como eu me sentiria se estivesse aí do seu lado”. E é disso que estou falando.

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