O beijo gay: muito mais que uma conquista contra a homofobia

Camila Padilha

Depois de tantas expectativas, tensões, opiniões.. o beijo entre os personagens homossexuais Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) aconteceu. Sexta-feira, 31 de janeiro, última semana da novela das 21h, “Amor à Vida”, da Rede Globo.  Milhares de pessoas esperando o acontecimento. E no fim (pra completar), o pai de Félix, César (Antônio Fagundes), depois de perturbar o filho com comentários preconceituosos, diz que o ama. Que final, não?

O Beijo de Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso), em cena na novela "Amor à Vida" (Foto: Reprodução/G1)

O Beijo de Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso), em cena na novela “Amor à Vida” (Foto: Reprodução/G1)

Pois bem. O beijo entre as personagens significou tantas coisas que fica até difícil enunciar todas elas. Em primeiro lugar, tal acontecimento expôs a questão do homossexualismo: casais do mesmo sexo mantem o mesmo tipo de relação em comparação aos casais heterossexuais. Então, sim, eles se beijam como homens e mulheres juntos. A cena, contudo, não foi a primeira nas telas brasileiras: foi com a atriz Viviane Alves em um teleteatro chamado “A Calúnia”, contracenando com a atriz Geórgia Gomide, em 1964. (Viviane também contracenou o primeiro beijo hétero, em 1951).  Mesmo com todo o sentimento que a cena de Félix e Nico transpassou, ainda teve gente que reclamou.

O Casamento e o Homossexualismo na História

Até o fim da década de 70, casamento no Brasil era quase como um conto de fada: felizes ou não, mas para sempre. A lei, na época, proibia o divórcio e, finalmente, quando o Governo autorizou a separação dos casais, a mesma só poderia acontecer uma única vez. O rebuliço foi tanto que o deputado Nelson Carneiro, que defendia fortemente a causa, foi tido como um herói libertário por alguns e até como anticristo, por outros.

A Luta por direitos e igualdade no Brasil e no Mundo (Foto: Getty Images)

A Luta por direitos e igualdade no Brasil e no Mundo (Foto: Getty Images)

Da mesma forma que a concessão do divórcio, hoje em dia, parece fantasia, o homossexualismo e o casamento de casais homossexuais parece repetir a mesma história. Algo que, para muita gente,parece absurdo e que um dia, quem sabe, será tão espontâneo quanto os divórcios hoje.

Dentro da História Mundial, a sodomia (palavra religiosa que designa perversão sexual) foi considerada crime durante muito tempo em diversos países. Aqui no Brasil, isso se deu até 1830 – antes disso, o Código Criminal do Império levava em conta as Ordenações Filipinas que determinavam que homossexuais fossem queimados vivos. Em comparação, países como Inglaterra e Suécia só deixaram de considerar tal prática como crime em 1944 e em 1967, respectivamente. Nos EUA, por exemplo,  leis contra a sodomia só foram revogadas em totalidade em 2003, como uma decisão da Suprema Corte e não dos corpos legislativos estaduais.

Como se vê, muito antes de lutarem por direitos, os homossexuais tiveram de lutar por liberdade dentro da própria lei. Outro marco histórico importante foi o dia 17 de maio de 1990 – quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou o homossexualismo da lista mundial de doenças. Sim,  o homossexualismo foi considerado mundialmente como doença até a última década de 1990. É claro que, apesar de tal atitude da OMS, cada país seguiu tal medida em tempos diferentes. O Brasil teve o homossexualismo retirado da lista de doenças em 1985, pelo Conselho Federal de Psicologia. Em contrapartida, a China só fez o mesmo em 2001.

Segundo o IBGE 2010, Brasil tem mais de 60 mil casais gays  (Foto: web)

Segundo o IBGE 2010, Brasil tem mais de 60 mil casais gays (Foto: web)

Enfim, os homossexuais continuam na luta e somam, segundo último censo do IBGE (de 2010), mais de 60 mil casais. ( E talvez muito mais que isso, porque o medo e a vergonha de se declarar homossexual faz com que o número não transpareça a realidade de fato). Mais direitos, igualdade e, enfim, o casamento entre casais gays são grandes objetivos atuais de quem está na luta.

O Beijo gay e a mídia

A mídia transpassa a realidade. Isso é um fato. É difícil dizer qual é o influenciador e qual é o influenciado. Exemplo clássico Tostines – vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?. Afinal, a sociedade influencia a mídia ou a mídia influencia a sociedade? Talvez os dois.

A televisão, atualmente, é um dos grandes símbolos midiáticos no Brasil. Segundo o censo do IBGE 2010, 95,1% das residências brasileiras possuem aparelhos de TV. Uma porcentagem quase dominante. Talvez por isso, com tamanha força, a televisão acabe por influenciar a rotina dos brasileiros.

O fato é que a mídia também vai sendo caracterizada pela sociedade, sim. A partir da primeira década do século XXI, percebe-se uma grande presença de homossexuais nas telenovelas. (Depois de ter havido, como já vimos na História, certa aceitação dentro da lei dos gays – homossexualismo sem ser crime ou doença). Essa presença, tornando-se algo corriqueiro, acaba por forçar – de certa forma – o acontecimento do beijo, afinal, transmite-se aos telespectadores milhares de cenas afetivas entre casais heterossexuais. Mesmo assim, os gays são tidos quase como “assexuados”, com algum melhor amigo com quem divide o apartamento/casa.

Um caso que repercutiu bastante foi o da novela América, em 2005, que tinha seu casal gay interpretado por Junior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro). O beijo entre eles foi censurado. E por que tal censura? Talvez a sociedade não estivesse preparada para tal “acontecimento”. E assim, entra a mídia (televisão, no caso) com seu filtro e barra tal ação. Praticamente nove anos depois, o beijo acontece. E por que? Talvez porque a sociedade agora estivesse preparada.  Relação de mútua dependência. Mídia e sociedade não se desgrudam.

Mesmo assim, apesar de “inovação”, a mesma não é tão grande e tão conquistadora: o beijo foi modesto (em comparação a tantos outros que assistimos), e as telenovelas continuam a girar em torno de um padrão social muito normativo – casais que acabam sendo “felizes para sempre”, reproduzem, consomem, se cuidam esteticamente.. além da predominância de brancos sobre os negros.

O Beijo gay entre Félix e Niko foi promissor,sim. E que ele seja apenas o início de um futuro mais igualitário e menos segregado para brancos ou negros, hetero ou homossexuais, homens ou mulheres. E que a relação mídia e sociedade tenham menos “versus” entre si e muito mais interdependência.

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